quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O beijo (ou, o sonho dentro do sonho dentro do sonho)

o reencontro deu-se após dez anos. era um dia morno-quente, um fim de tarde soalheiro. havia pássaros a rir. 
estás bonita, quando, na verdade, queria dizer-lhe, porra, porque te deixei partir? ela respondeu com um sorriso, quando, na verdade, quis morder-lhe aqueles lábios cheios.
falaram dos tempos da universidade. das conversas à lareira sob o frio aguado do inverno, entretidas com copos de vinho, das considerações filosóficas sobre o existir, a felicidade, a metafísica.
lembras-te daquela vez em que tu e o Tiago quase se pegaram a discutir deus?
ela riu-se e ele viu-lhe no olhar o mesmo brilho de há dez anos. porra, porque não te impedi de partir naquele maldito dia?
lembro. ainda há dias falava disso quando dizia a uma paciente que, se os médicos não nos salvam, muito menos deus o fará. e dei por mim na nossa sala, a discutir com o Tiago essa figura transcendental. o que é feito dele? tenho saudades... 
e de novo o brilho no olhar. e de novo a maldita interrogação e a vontade de voltar àquele dia para a impedir de partir.
o Tiago está na Índia, numa missão.
pois, só podia. sempre vi nele um humanista, nem podia ser de outra maneira. mas e tu, fala-me de ti.
(falo-te de  mim, pensou. de mim não há nada a dizer a não ser que te amo, exatamente como no dia em que o soube, quando discutias com o Tiago a (não) existência de deus. és linda quando te enfureces, sabes? naquele momento apeteceu-me puxar-te dali para o meu quarto e beijar-te o corpo sob a luz da lua como reflexo. mas esse dia ficou no lá-longe. porque não te impedi de partir. à tua pergunta queres que fique foi só o silêncio. e entraste naquele comboio sem sequer olhar para trás. nem sei em que banco te sentaste, se é que isso é importante.)
sobre mim não há nada a dizer. sorriu. e de novo o silêncio. de novo a cobardia de lhe dizer que a ama, de a tirar daquele restaurante e fazer amor com ela naquela tarde solarenga. o estio de novo adiado.
lembras-te daquele dia em que chegaste a casa tão bêbedo depois de uma Queima que tive de te vestir o pijama? mal conseguias falar e perguntaste, no dia seguinte, se te tinha violado. o que me ri.
devias tê-lo feito.
desculpa? ruboresceu. o brilho no olhar secou. 
porquê, Pedro? no fundo, ela sempre soube.
porquê, o quê?
ela levantou-se e foi até ao varandim beber o resto do vinho. foi aí que ele percebeu que ela sempre soubera. ele acercou-se dela, agarrou-a pela cintura e beijou-lhe o pescoço parcimoniosamente, enquanto as suas mãos percorriam o seu corpo ao encontro do seu sexo.
o sol já ia alto quando acordou. levantou-se, olhou-se ao espelho e viu duas rugas profundas nos olhos, não sem recuar dez anos e pensar como seria a sua vida se ele, à pergunta queres que fique, tivesse dito sim.
porquê, Pedro, porque me deixaste partir se tu-eu nos gostávamos?
toca o telemóvel. ela acorda ainda com a sonolência comum dos dias frios de domingo.

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