segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Folhas caídas

era uma terça-feira. o sol descia a pique a colina verde indo esbater-se no prado quente. os animais da quinta dormiam. os velhos descansavam por dentro das casas.
anda, disseste, vamos ser felizes. e olhavas o céu, desenhando-lhe nuvens dançarinas. à noite sorrias às estrelas, como só uma menina sabe rir. como tu. e eu já amava os teus ainda longínquos cabelos brancos e as tuas mãos de rugas feitas. nunca to disse senão agora que o chão me falta.
anda, vamos ser felizes, dizias, por entre as margaridas do jardim. e as flores riam contigo, como se de borboletas se vestissem. podem passar mil vidas mas o teu sorriso nunca morre.
hoje sou velho sozinho. observo as nuvens e as estrelas, mas faltam-me os teus olhos. os campos de margaridas murcharam. até as couves no quintal do vizinho estão tristes de te não ver sorrir. e continua a ser terça-feira. aquela terça-feira.
hoje sou velho sozinho. falta-me o café feito ao lume e a manteiga a escorrer da torrada. falta-me o sobretudo limpo a seco que insistias todos os anos mandar para a lavandaria, não obstante a minha resistência. falta-me o chá quente ao fim da noite e o aconchego das mantas outonais, quando o frio teimava em perturbar-me as mãos. falta-me tanta coisa, mas, no fundo, falta-me apenas uma.
nunca te disse que amava os teus cabelos brancos. nunca te disse que amava os teus olhos de sempre-menina. nunca to disse senão agora que o chão me falta. e o chão não é onde poiso os pés. o chão é o teu regaço, onde eu deitava as minhas lágrimas sem que as visses. porque no meu tempo um homem não chorava. sim, um homem não chora senão agora que o chão me falta. nunca to disse.
o alpendre ainda lá está à tua espera. e a tua cadeira de baloiço onde costumavas ler e sonhar. acima de tudo sonhar. sento-me nela para sonhar também, mas faltam-me os teus olhos.
anda, vamos ser felizes, disseste-me um dia. e eu, que não passava de um idiota, recusei-te.
hoje sou velho sozinho. fazes-me falta. nunca to disse senão agora que o chão me falta. e o chão és tu.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Outono

o outono está a chegar. sinto-o pelo frio rasante nos dedos. sinto-o pela parca luz que me entra pelas janelas. há já um cheiro a castanhas na saudade, embebidas em licor de jeropiga. 
o chão atapetado de verde sucumbe. os caminhos ir-se-ão fartar de cores. as aves migrarão de lugar à procura de outros ninhos: os céus encher-se-ão de asas. 
os figos pingam em mel das árvores prenhes. alguns secaram ao sol de verão e jazem no chão, mortos. outros, envoltos nos bicos de pássaros, saciam-lhes a fome. 
tenho medo que o tempo passe. tenho medo que cheguem outros outonos e que tu partas sem eu te conhecer. enchem-se-me os bolsos de saudade daquilo que ainda não somos. é como se eu vivesse por antecipação. não quero pensar nisto, mas tenho medo que tu me vás. fica, digo-te então em surdina. e agarras tão firme a minha mão com os teus dedos de pequeno encanto. 
mas hão de chegar outros outonos. terei rugas de te chorar pequeno, quando olhar lá para trás. sentar-me-ei à janela a tecer a memória. vou pegar-te uma e outra vez ao colo, mas tão-somente no beco da saudade. ver-te-ei a rir, a chorar, limpar-te-ei as lágrimas num afago. não. não me agradeças. não tens de agradecer. eu sou a tua mãe e mãe escreve-se com amor.
por ora olho-te demoradamente. sem tempo. sem pressa. no entanto, pergunto-me: e eu? e tu? que há de ser de nós?

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O amor

Os outonos já não são iguais. As manhãs que orvalham a terra são mais frescas, mais calmas. Apesar de ser tarde. As sementes há muito que desabrocharam e o milho restolha nos campos mornos. Do verde ao dourado foi um instante, um lapso de tempo. 
Tu ainda dormes. A tua respiração contínua abranda uma dor que em mim fica todos os fins de tarde, quando o dia morre. 
Bebo um café apressadamente, pois os teus braços chamam-me. Ris-me com o olhar. Falas-me com o sorriso que ainda não dás. Mas que eu vejo. Ou sonho. 
Há um silêncio que nos fere. Digo-te palavras que não entendes e olhas-me de soslaio, como se eu fosse louca. E sou. De tanto te amar!