segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Carta para o meu filho

filho, escrevo-te do lá-longe, onde não há mantas nem cachecóis, nem entardeceres de praia ao sol-pôr. morri-te. e deixo-te estas linhas com as palavras que não te disse, ou, se disse, já as esqueci.
hoje lembrei-me de ti. na verdade, lembro-me todos os dias, não sei bem como, pois morri-te. deve existir um cérebro de mãe que nunca morre. foram tantas as coisas que lembrei que não sei por onde começar. rias. e os teus olhos enchiam-se de luz. 
a chuva fere-me o telhado em gotas de pinga-amor. tu dormes, imune à chuva, imune ao mundo lá-fora. 
doem-me as mãos, aquelas que te amparam o choro. doem-me os olhos do cansaço, das noites insones, do ter cá-dentro um amor maior que é o teu.
sabes, a vida é feita de adendas, hora-a-hora, dia-a-dia, como se fosse uma manta feita a retalhos. no fim, tudo se conjuga, tudo faz sentido, menos a morte. mas disso não te falo, não agora que ainda é o começo.
anda, senta-te aqui, vamos falar de amor, daquilo que nos une sem palavras, sem quês ou porquês, simplesmente porque sim. às vezes há metafísica nas palavras que se fecha numa hermenêutica que ninguém entende. sabes, só o sentir é bom. e os sonhos não são senão a poesia da alma. por isso, sonha, faz de ti o poeta da tua vida, o artesão do teu caminho. e não deixes que te expliquem todos os porquês. só o sentir já é bom.
dói-me o corpo pelo peso dos anos. já me falta pouco, bem sei. quero deixar-te presa ao peito a saudade. quero imprimir em tons sépia um abraço persistente. quero que te lembres, sobretudo, quando eu for velhinha e os olhos me fugirem para as mãos cansadas, que o amor é a única sedução possível.
hoje sei que não passo de um vácuo de memória, de um resto de ser. e eu espero que tu sejas poeta-canção.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O beijo (ou, o sonho dentro do sonho dentro do sonho)

o reencontro deu-se após dez anos. era um dia morno-quente, um fim de tarde soalheiro. havia pássaros a rir. 
estás bonita, quando, na verdade, queria dizer-lhe, porra, porque te deixei partir? ela respondeu com um sorriso, quando, na verdade, quis morder-lhe aqueles lábios cheios.
falaram dos tempos da universidade. das conversas à lareira sob o frio aguado do inverno, entretidas com copos de vinho, das considerações filosóficas sobre o existir, a felicidade, a metafísica.
lembras-te daquela vez em que tu e o Tiago quase se pegaram a discutir deus?
ela riu-se e ele viu-lhe no olhar o mesmo brilho de há dez anos. porra, porque não te impedi de partir naquele maldito dia?
lembro. ainda há dias falava disso quando dizia a uma paciente que, se os médicos não nos salvam, muito menos deus o fará. e dei por mim na nossa sala, a discutir com o Tiago essa figura transcendental. o que é feito dele? tenho saudades... 
e de novo o brilho no olhar. e de novo a maldita interrogação e a vontade de voltar àquele dia para a impedir de partir.
o Tiago está na Índia, numa missão.
pois, só podia. sempre vi nele um humanista, nem podia ser de outra maneira. mas e tu, fala-me de ti.
(falo-te de  mim, pensou. de mim não há nada a dizer a não ser que te amo, exatamente como no dia em que o soube, quando discutias com o Tiago a (não) existência de deus. és linda quando te enfureces, sabes? naquele momento apeteceu-me puxar-te dali para o meu quarto e beijar-te o corpo sob a luz da lua como reflexo. mas esse dia ficou no lá-longe. porque não te impedi de partir. à tua pergunta queres que fique foi só o silêncio. e entraste naquele comboio sem sequer olhar para trás. nem sei em que banco te sentaste, se é que isso é importante.)
sobre mim não há nada a dizer. sorriu. e de novo o silêncio. de novo a cobardia de lhe dizer que a ama, de a tirar daquele restaurante e fazer amor com ela naquela tarde solarenga. o estio de novo adiado.
lembras-te daquele dia em que chegaste a casa tão bêbedo depois de uma Queima que tive de te vestir o pijama? mal conseguias falar e perguntaste, no dia seguinte, se te tinha violado. o que me ri.
devias tê-lo feito.
desculpa? ruboresceu. o brilho no olhar secou. 
porquê, Pedro? no fundo, ela sempre soube.
porquê, o quê?
ela levantou-se e foi até ao varandim beber o resto do vinho. foi aí que ele percebeu que ela sempre soubera. ele acercou-se dela, agarrou-a pela cintura e beijou-lhe o pescoço parcimoniosamente, enquanto as suas mãos percorriam o seu corpo ao encontro do seu sexo.
o sol já ia alto quando acordou. levantou-se, olhou-se ao espelho e viu duas rugas profundas nos olhos, não sem recuar dez anos e pensar como seria a sua vida se ele, à pergunta queres que fique, tivesse dito sim.
porquê, Pedro, porque me deixaste partir se tu-eu nos gostávamos?
toca o telemóvel. ela acorda ainda com a sonolência comum dos dias frios de domingo.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A bailarina e a chávena de chá

era uma vez todas as vezes. esta era para a caixinha de música. a caixinha de música tinha uma existência simples, servia apenas para te embalar. mi, lá, dó, uma cadência de notas para encantar petizes. às vezes calava-se e tínhamos de lhe dar corda. então, lá se levantava a bailarina, com os braços em pose a girar sobre si mesma. e o seu canto era o de pássaros em beirais de telhados de zinco. 
e eu bebo o chá nas tardes mornas de outono. e o teu entretém a adormecer, com os olhos da bailarina cansados a pesarem-lhe no rosto. e ela lentamente cai para se deixar dormir. é o embalo que lhe dói. 
é tarde, é já muito tarde. o chá arrefeceu na chávena esquecida no vão da janela. dói-lhe o cheiro de ser chá. a bailarina deixou de dançar, a caixinha deixou de tocar e os teus braços procuram outro embalo, talvez o da chuva que começou a cair. dói-me a mim também qualquer coisa, penso que o teu choro. acorro(te) num ímpeto de abraço. pego(te) e beijo(te) as faces coradas. ris. e a caixinha de música a necessitar de afeto. é o embalo que lhe dói.
esta é a história da tua caixinha de música, aquela que te adormece em sonhos bons, aquela que te desperta para um acordar de beijos. sabes, não a deixes morrer, ainda que o embalo lhe doa.
mas um dia a caixinha de música não tocou. pensávamos que era da pilha, mas não. a música sepultada num funeral por vir. a bailarina prostrada aos pés do piano com as pernas partidas. é um dó vê-la. a sua voz transformada num choro inundado de lágrimas. a caixinha de música morreu, como morrem todas as coisas. fim.

Quero

quero, de novo, as noites por inteiro, a tela onde guardo as memórias que não são minhas e os passos que ficaram por dar. 
quero o gargalhar de fim de dia sem ponteiros, nem relógios, sem esgares de dor, nem subtis afonias.
e, no entanto, tu.
quero a vida que me fugiu por becos de saudade. 
quero o sol de verão a enrugar-me a pele, o vento outonal que me fustiga os cabelos, o frio que se me enrola em cachecóis de pura lã, os espirros matinais dos pólenes primaveris. 
quero. e, contudo, tu.
quero. mas já não sei ser sem ti. quero o que ficou lá atrás, mas também o futuro contigo. e esta dicotomia que me dilacera, como se não houvesse ontem-amanhã, mas apenas o hoje, turbilha-me nas veias, aquece-me a memória e incendeia o meu peito em tons de mel e fuligem. quero, porém, tu.
sabes? quero(te). quero(nos). quero(me). e todos estes pronomes são apenas um: tu.
há um quê de doente na ponta dos meus dedos: não sei se a obsessão de te querer, se a esquizofrenia de te não ter para sempre. sim, há um quê de doente na ponta dos meus dedos. e toco-te, para ver se és real ou se não passas de uma alucinação. a alucinação de te querer, querendo(me)(nos).
quero tanto e tão pouco. ali, o teu abraço; além, o teu sorriso; aquém, o teu olhar.
quero(me). e, não obstante, tu.

Imagem: www.luciamrusso2.com



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Folhas caídas

era uma terça-feira. o sol descia a pique a colina verde indo esbater-se no prado quente. os animais da quinta dormiam. os velhos descansavam por dentro das casas.
anda, disseste, vamos ser felizes. e olhavas o céu, desenhando-lhe nuvens dançarinas. à noite sorrias às estrelas, como só uma menina sabe rir. como tu. e eu já amava os teus ainda longínquos cabelos brancos e as tuas mãos de rugas feitas. nunca to disse senão agora que o chão me falta.
anda, vamos ser felizes, dizias, por entre as margaridas do jardim. e as flores riam contigo, como se de borboletas se vestissem. podem passar mil vidas mas o teu sorriso nunca morre.
hoje sou velho sozinho. observo as nuvens e as estrelas, mas faltam-me os teus olhos. os campos de margaridas murcharam. até as couves no quintal do vizinho estão tristes de te não ver sorrir. e continua a ser terça-feira. aquela terça-feira.
hoje sou velho sozinho. falta-me o café feito ao lume e a manteiga a escorrer da torrada. falta-me o sobretudo limpo a seco que insistias todos os anos mandar para a lavandaria, não obstante a minha resistência. falta-me o chá quente ao fim da noite e o aconchego das mantas outonais, quando o frio teimava em perturbar-me as mãos. falta-me tanta coisa, mas, no fundo, falta-me apenas uma.
nunca te disse que amava os teus cabelos brancos. nunca te disse que amava os teus olhos de sempre-menina. nunca to disse senão agora que o chão me falta. e o chão não é onde poiso os pés. o chão é o teu regaço, onde eu deitava as minhas lágrimas sem que as visses. porque no meu tempo um homem não chorava. sim, um homem não chora senão agora que o chão me falta. nunca to disse.
o alpendre ainda lá está à tua espera. e a tua cadeira de baloiço onde costumavas ler e sonhar. acima de tudo sonhar. sento-me nela para sonhar também, mas faltam-me os teus olhos.
anda, vamos ser felizes, disseste-me um dia. e eu, que não passava de um idiota, recusei-te.
hoje sou velho sozinho. fazes-me falta. nunca to disse senão agora que o chão me falta. e o chão és tu.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Outono

o outono está a chegar. sinto-o pelo frio rasante nos dedos. sinto-o pela parca luz que me entra pelas janelas. há já um cheiro a castanhas na saudade, embebidas em licor de jeropiga. 
o chão atapetado de verde sucumbe. os caminhos ir-se-ão fartar de cores. as aves migrarão de lugar à procura de outros ninhos: os céus encher-se-ão de asas. 
os figos pingam em mel das árvores prenhes. alguns secaram ao sol de verão e jazem no chão, mortos. outros, envoltos nos bicos de pássaros, saciam-lhes a fome. 
tenho medo que o tempo passe. tenho medo que cheguem outros outonos e que tu partas sem eu te conhecer. enchem-se-me os bolsos de saudade daquilo que ainda não somos. é como se eu vivesse por antecipação. não quero pensar nisto, mas tenho medo que tu me vás. fica, digo-te então em surdina. e agarras tão firme a minha mão com os teus dedos de pequeno encanto. 
mas hão de chegar outros outonos. terei rugas de te chorar pequeno, quando olhar lá para trás. sentar-me-ei à janela a tecer a memória. vou pegar-te uma e outra vez ao colo, mas tão-somente no beco da saudade. ver-te-ei a rir, a chorar, limpar-te-ei as lágrimas num afago. não. não me agradeças. não tens de agradecer. eu sou a tua mãe e mãe escreve-se com amor.
por ora olho-te demoradamente. sem tempo. sem pressa. no entanto, pergunto-me: e eu? e tu? que há de ser de nós?

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O amor

Os outonos já não são iguais. As manhãs que orvalham a terra são mais frescas, mais calmas. Apesar de ser tarde. As sementes há muito que desabrocharam e o milho restolha nos campos mornos. Do verde ao dourado foi um instante, um lapso de tempo. 
Tu ainda dormes. A tua respiração contínua abranda uma dor que em mim fica todos os fins de tarde, quando o dia morre. 
Bebo um café apressadamente, pois os teus braços chamam-me. Ris-me com o olhar. Falas-me com o sorriso que ainda não dás. Mas que eu vejo. Ou sonho. 
Há um silêncio que nos fere. Digo-te palavras que não entendes e olhas-me de soslaio, como se eu fosse louca. E sou. De tanto te amar!

terça-feira, 16 de julho de 2013

Para a Minha Irmã

Passa o tempo devagar e,
Antes que chegue o fim, vamos
Rir juntas, como fazíamos lá
Atrás, na nossa meninice esquecida.

Até nos doer a barriga.

Mas, se nos perdermos no meio desse riso,
Inteiro, intacto, inalterado,
Na sombra de um choupal de beira-rio,
Havemos de lembrar tantas coisas como 
Aquelas que já não nos são.

Irmã. Sem ti os meus dias ficariam pela metade,
Remendados, qual
Manta de retalhos corroída pelos anos, sem que a 
(l)Ã, contudo, se desfaça. 

sábado, 15 de junho de 2013

Ano 2050

há muito que me morreram os pássaros, aqueles que se aninhavam nos meus beirais em profilaxias de beijos. 
hoje já só há o canto triste e mole das cegonhas que morrem ao nascer, pois já nem meninos entregam. esses nascem-nos dos ventres inchados.
hoje já só há borboletas em casulos de memória. e os ósculos às flores morreram aí. 
hoje já só há encanto de ovelhas em documentários de fim de tarde. a lã já não é pura-virgem, é entrelaçada em fios sintéticos de dedos cansados. 
os rios secaram. os mares estão mais pequenos. as cidades cresceram. as aldeias perecem em óleos sobre tela expostos em museus de luxo. 
há muito que me morreram os pássaros, os que me vinham debicar às janelas. e eu, por dentro delas, existia em sangue e vida.
hoje já só há memória no lugar do tudo. o tudo que eu não conquistei, porque já só existo em sombra, ou talvez naquele pedaço que me carregas. sabes porquê? porque há muito que me morreram os pássaros. 

sábado, 8 de junho de 2013

Avó dos olhos verdes

tinhas no olhar um rir de menina, um olhar onde desaguavam tantos mares.
dizias que, quando eras nova, todos te gostavam. e eu acreditava-te. diziam, também, que tinhas umas belas pernas, as mesmas que, cedo, te iriam fraquejar.
foste avó-mãe quando o outro regaço me faltou. e faltou. tantas vezes. foste afago. foste afeto. foste o deus-sol que me acariciou os dias.
as avós são duas-vezes-mãe, ouço. tu foste mãe. sempre.
hoje choro-te. choro-nos. e eu não sei onde estás: se no aspergir de uma flor, se no canto da noite, se na luz de uma estrela, se num rir de criança. ou se nisto tudo. 
porquê, avó? porque me morreste sabendo (te) (nos) que o amor é infinito?
hoje precis(o)ava-te aqui. que os teus dedos penteassem os nós dos meus cabelos. que o teu abraço me enlaçasse num refúgio. mas tu morreste(me). e de ti já só tenho o olhar verde a rir e a tua voz pequenina a pedir para te lavarem os pés, porque as tuas pernas, que um dia foram poesia de (en)canto, te não deixam.
porquê, avó? porque me morreste se sabias que (me) (nos) fazias falta?


sábado, 1 de junho de 2013

Eu-Criança


Quando eu era criança o mundo era cor-de-rosa. E azul. E verde. E amarelo. E violeta. Bem, na verdade era um arco-íris sempre a ser. Menos para os adultos, que eram daltónicos e queriam que crescêssemos à força. E crescemos. Teve de ser. Faz-te à vida, ouvia em todas as direções, como se ser criança fosse uma guerra. 
Quando eu era criança a vida era a fingir e os olhos riam como palhaços. Menos à hora do dormir, quando os sonhos do dia se transformavam em trevas finas de escurecer e o quarto, mergulhado na penumbra, desenhava nas paredes pesadelos de monstros que não existiam. Só em nós.
Quando eu era criança as horas andavam para trás. Era como se os relógios vivessem ao contrário, de pernas para o ar. Contudo, não tínhamos relógios. Nem de sol. Do sol, só o afago do quente-morno dos seus braços.
Quando eu era criança os brinquedos que não tive sorriam-me das montras citadinas. Eu parava nos passeios e ficava a imaginar. Apenas. Que, naquele tempo, os brinquedos eram apenas uma ilusão. E à noite, por entre o acolchoado dos lençóis, inventava nomes às bonecas-filhas que tinham sido dadas para adoção daquelas lojas que à noite se fechavam. E as bonecas choravam o abandono. E eu chorava com elas. 
Quando eu era criança já não era criança. Cresceram-me rugas nos olhos. Os cabelos esbranquiçaram. As pernas fraquejam-me. O coração chora a saudade. Hoje já sou só criança lá, onde aconteceu. E só quando choro me liberto de ser criança. Esvoaçam as memórias. Viro o relógio de pernas para o ar mas ele, teimosamente, volta ao seu lugar, qual íman do tempo.
Quando voltar a ser criança serei aquilo que não fui. Talvez um palhaço a rir. Talvez um saltimbanco de circo. Talvez apenas uma memória. Sim, uma memória, daquelas que me espreitam por trás da porta e dizem, anda, vem brincar, tens tempo de crescer. E serei feliz como, não obstante, fui.

sábado, 18 de maio de 2013

Eu(s)

Há sempre um quê de saudade por entre as mantas da solidão. É nesse tempo e nesse espaço que nos pertencemos, como se a vida fosse só lá-dentro. De nós. Onde os ruídos são escassos e as palavras a mão que embala o berço. 
Não há senão gritos mudos na solidão, essa porta aberta por onde entram nenhuns, onde os algures são espaços vazios. Onde a vida flui como lava incandescente. Onde os outros não são senão pedaços. Só lá. Em nós. 
E cai a tarde, neste espesso de nada, na quietude do lugar que é em mim, na lassidão do tormento que se foi porque não é. As ondas revoltam-se lá longe, no mar. Mas não aqui, em mim. Não hoje. Hoje só o silêncio. E é no silêncio que me desfaço como espuma de nada. É no silêncio que escuto vozes do lá-longe, como eus difusos num espaço sideral. Sim. Porque eu sou muitos eus, cada um marcado pela presença de um tu, de um vós. E é nestes eus que me enrolo para me guardar, como se fosse para sempre casulo e nunca borboleta. 
Agora só o ritmo do tempo marcado a passo de relógio. E a bruma da saudade que teima em ficar, a ocupar esse espaço-vazio-de-nada. Como se fosse uma moldura vazia. 
E quando supomos que tudo é, nada é. E do resto. Mas do resto só o silêncio. E eu? O que sou? Um resto dos outros. 

domingo, 12 de maio de 2013

Filho-Mãe

Vamos iniciar esta viagem juntos. Eu desconheço o que é ser mãe. Tu ignoras o que é ser filho. Para já só o amor, aquele que não sabemos o que é. Nunca sabemos. Até sê-lo. 
Para já só o medo. O medo deste trilho que vamos começar juntos. Tu de um lado. Eu do outro. A par. A passo. Vamos cair algumas vezes, mas levantar-nos-emos com os olhos postos no futuro que nunca chega. 
Para já só o erro. Também iremos errar muitas vezes. Eu em ti. Tu em mim. Perdoar-nos-emos, porque vamos estar sempre a aprender, como se a vida-filho-mãe fosse um manual de instruções sempre a acontecer. 
Para já só a ânsia. De querer que acertes em todas as escolhas que farás, ainda que, a falhares, me doa mais a mim do que a ti. Mas tu nunca o saberás. Porque a força-mãe que em mim habita me impelirá a nunca te deixar cair. Mas vais cair. Sei que vais cair. Porque um dia não vou estar lá.
Para já só a certeza. De que nunca te faltarão flores. Não as de jardim, que no inverno morrem. Ou adormecem, apenas. Mas as flores que à noite te vou contar em forma de histórias para crianças, onde tudo acontece e nada é. Onde os sonhos se desenrolam como novelos de lã coloridos. 
Para já só o sol. Não o astro-rei que incendeia o céu, mas aquele que tu aqueces em mim quando esbracejas à procura de lugar. Quando te aconchegas no teu canto-mãe para dormir a sesta. Ou quando esperneias porque já não cabes em ti.
Para já só a luz. Aquela que eu vejo quando se apagam todas as estrelas e a noite cai em forma de breu. Mas ela está lá, a brilhar num qualquer canto do meu olho e a acenar-me um final feliz. 
Para já. Para já só o amor. Irei partir antes de ti. Terei de partir. Forçosamente. Mas levarei comigo todos os teus momentos de ser. Os grandes e os pequenos. Os gestos e os risos. Os doces e os amargos. As quedas e as lágrimas. Os abraços e a falta deles. Levo comigo o amor. Aquele que só acontece sendo. Não vou querer que chores. Vou querer que te lembres do primeiro abraço que te dei e que te guardes nele. Como se fosses a sua semente. Porque é isso o amor. É a doação infinita de um ser a outro. E é isto que serei para ti. Sempre. Sempre. O amor. (Para o Tomás.)

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A cidade

Uma luz suave cai sobre a cidade quase adormecida. Há uma semi-noite que se anuncia. Há vidas por dentro das janelas iluminadas. Há telhados que terminam em águas-furtadas. Vê-se o pico de uma igreja e a porta semi-aberta através da qual pessoas se cruzam, acenando-se. Um pouco ao longe, num prédio que sobressai dos restantes, avista-se uma divisão ampla, com os cortinados em desalinho e um candeeiro de teto a pender para o meio da sala. Em toda uma parede há estantes com livros, de todas as cores e tamanhos, um jardim de letras onde se semeiam as palavras. 
Num canto, à lareira, um vulto lê. Há uma manta que lhe cobre os ombros. E eu não sei a sua idade. Talvez vinte, um pensador ávido de conhecimento. Talvez quarenta, mente madura a precisar de palavras. Talvez, até, oitenta, pesando a vida com o pensamento dos outros. O livro fala-lhe. Ele responde-lhe em silêncio.
Entretanto, o dia rompe. O sol já vai um tanto alto quando acordo. Há zumbidos de pássaros nos alvéolos das flores e cantos de abelhas nos ramos das árvores. Ou será ao contrário? Neste momento não sei se foi sonho ou real. Se foi vida ou ficção. Não sei o que acontece em mim quando durmo, senão que sei que sonho. É isto a vida.
E há sempre vida por dentro das casas. Pelo menos enquanto não nos morrerem as memórias. 

sábado, 27 de abril de 2013

O trevo e o pirilampo

Houve um tempo em que na minha memória apenas habitavam campos de trevos pintados de flores amarelas. Houve, também, pirilampos, pequenos voadores que exigem longas e quietas planícies douradas para existir. A esta memória gosto de chamar infância, a idade que não tem idade, nem dias, nem horas, onde o tempo só é tempo nos relógios do futuro. 
Os pirilampos vinham à noite linguarejar-me o sono. Outras vezes eram os cães. Outras, ainda, era o matraquear da velha máquina de escrever de meu pai, que ronronava pela noite dentro, como se para ela também não existisse tempo, apenas a velha infância. Não sei o que ela escrevia. Nunca o soube. 
Há lugares que nunca esquecemos. Como se nos corressem nas veias como a seiva nas flores. Ou como se se tatuassem na nossa pele como amor de mãe. Aqueles lugares onde se descansa a minha memória e os pirilampos ainda piscam. 
Mas há, também, sítios que as ideias não visitam, nenhum pensamento os frequenta. Esses são os sítios-nada, onde o tempo, o lugar e a pessoa não se encontram para haver futuro. Desconfio, até, que nem os pirilampos por lá voam. São os lugares vazios onde as memórias não entram e os campos de trevos não existem. 
Agora habito sítios onde já não há planícies douradas nem pirilampos plantados junto aos trevos amarelos, ou a esgueirar-se em tons de azul até lá ao fundo, às nêsperas maduras.
Hoje já só vou guardando memórias. Mas há lugares onde, na vez delas, já só há silêncios e ocos.

domingo, 7 de abril de 2013

A casa

As janelas estavam fechadas, como se a casa se tivesse aquietado num sono profundo, ou tivesse mesmo adormecido, para sempre. Os retratos, cheios de pó e emoldurados a teias, pareciam pinturas de outra era, imponentes, de olhar sério e bigodes penteados a rigor. As senhoras, de vestidos que, ao movimentar-se, faziam um frou-frou suave, sorriam forçadamente para a tela, ou para o pintor.
Do lado de dentro das paredes só o silêncio, pesado, fúnebre, incandescido por uma natureza morta. Não havia nada, a não ser o nada a existir. 
Decorria o ano de 1900. Portugal era outro, mais novo, no traço e no género. Alguns coches passeavam-se pela cidade, uns a anunciar o futuro, outros ainda a trote de cavalo. Eu, que vivia noutra época, num futuro não muito longínquo, bebia aquela vida com a subtileza de uma borboleta que esvoaça ao redor da flor com movimentos de bailarina. E eu a querer ser dali. A querer existir a trote de cavalo. 
Os meus olhos pousaram na casa. Térrea, de paredes grossas, com vasos à janela. Uma luz baça, como que mortificada, penetrava as janelas fechadas fazendo anunciar a solidão da casa. Os objectos pereciam, perenes, cobertos de um pó esbranquiçado, nos móveis também eles por existir. Tudo tão vazio e, contudo, tão cheio. 
Quis entrar na casa, sentar-me na chaise longue e fazer parte daquele início de século tão diferente do meu. Como é viver no niilismo do futuro? No nada do amanhã, embora eu o saiba porque nele vivo? 
Há sempre algo de saudoso no passado. A mim, doíam-me os olhos de não o poder ter visto. Mas, o que mais dói na saudade, é ela existir. 

7 de Abril de 2013

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A pessoa mais fascinante que nunca conheci

O frio crepita no lume apagado da lareira. Lá fora a chuva tece uma conversa de fim de dia, num murmúrio quase inaudível. Por dentro das casas há silêncios, conversas feitas de nada. As janelas piscam luzes fracas que se vão acendendo à vez. E o frio no lume apagado da lareira.
Em cima de uma mesa, uma vela derrama uma luz ténue, semi-ofusca, desenhando no tampo o candelabro velho e sujo. As horas vão passando. A chuva começa a cair a pique, fazendo tinir nos passeios um som de vidros a partir. Intensifica-se o frio. Intensifica-se a dor de ser só. E ela esbate contra o vidro a sua solidão. 
Há carros, porém, as ruas estão despidas de gente. No interior da casa há uma sobriedade incomum. Os gatos dormem. O pássaro cala. O cão sonha. Apenas ela existe. Existe naquele dia de ser ninguém. Pega um livro, pousa-o no regaço em contracapa. Lá dentro as personagens dormem. Abre numa página qualquer e Mary espreguiça-se, boceja, e beberrica um chá de menta enquanto conversa com Jack, o mordomo. Fecha o livro. A personagem adormece. 
Numa outra página, Mary conversa com Gabriel. 
- Esta indolência... é um aborrecimento. 
- Devia sair mais vezes, menina Mary.
- Para onde? Ver o quê? Já fiz tudo o que havia para fazer. Agora só me resta esperar.
- Diga-me, qual foi a pessoa mais fascinante que nunca conheceu?
Fecha novamente o livro. A pessoa mais fascinante que nunca conheci, pensa. E põe-se a dialogar consigo, num sussurro breve. 
A noite caiu, por fim. A chuva serenou, ouvindo-se apenas um ping-ping cadenciado e doce. Os animais estremecem, como que sacudidos por uma brisa, voltando rapidamente ao lugar comum do sono. A vela acaba por finar, deixando morrer também a sombra do candelabro. Um candeeiro de rua invade a sala com a sua luz, intrometendo-se na quietude da casa. 
A pessoa mais fascinante que nunca conheci. E desenha, em letras trocadas no baço da janela, onde a luz do candeeiro incide para a noite apagar, depois de o frio se extinguir: UT

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

La Réponse à la Lettre


A.




Escrevo-te de sob o quente das mantas neste dia frio de outono. O sol brilha, mas o ar corta a pele em agulhas de gelo que nos adormecem as faces. Adivinha-se o inverno nos ramos nus das faias de fora da janela, no cristalino azul do céu, na gata que se enrosca junto do bule de chá que exala o paraíso pelo bico. Há um prenúncio de neve nas minhas mãos sempre frígidas, nos olhos que me ardem de lágrimas que não choro.
Lembro-te. Dois momentos ressaltam-me na curva da memória, quase sucessivos. Um concerto à chuva, Não respire, pode respirar, em que foste a única que partilhou comigo a urgência de ir, apesar do cansaço, da chuva, da inebriação do álcool. E um Chá Dançante a que não foste, porque foste a única que escolheu ficar a fazer-me companhia numa madrugada de luto.
Não me lembro ao certo de como nos conhecemos, exceto que foi por intermédio do meu melhor amigo da época. Não me lembro das palavras exatas que trocámos, apenas que era um prazer conversar contigo. E em breve deixaste de ser a amiga de um amigo e passaste a ser a minha amiga.
A vida levou-me para longe. Ou talvez não fosse a vida, mas as minhas escolhas, o que dá no mesmo. Fui fazer o luto para outro país, quis afastar-me do que em Coimbra me entristecia, me tolhia os movimentos. Devia ter feito um esforço maior para manter perto o que dessa cidade me fazia feliz.
Andei longe por muito tempo. E ao momento de luto em que me seguraste a mão e me consolaste com o teu silêncio, somaram-se outros; aos momentos de alegria que tínhamos partilhado sucederam-se outros, sem que estivesses presente, mas de alguma forma, sem que estivesses ausente…
Não me esqueci de ti. O luto e a alegria vividos deixaram a sua marca no meu rosto, tal como acontece com todos. Mas é bom haver na vida pessoas como tu, que reconhecem o que está por detrás dessas marcas exteriores, que acedem ao que é essencial.
Não terás que esperar muito por um reencontro presencial. Diz quando e aí estarei. Para ouvir uma música. Para ler um poema. Para rir contigo, porque o riso não tem idade. Para me lembrar, eventualmente, das coisas que possamos ter esquecido.
Da tua amiga,
MJ

sábado, 1 de dezembro de 2012

La Lettre

Para a M.J.
Rua da Saudade, sem número
9999-999 Amizade

Há folhas amontoadas nas valetas. Há chuva suspensa nas féculas nuvens. Já não há verde nos caminhos e, nas árvores, apenas um cinzento-musgo seco. O vinho descansa nos tonéis sem saber se há de fermentar. Os pássaros olham o azul-céu e vêem longe a sua viagem.  Há um desejo latente de caruma a palpitar na lareira. Há castanhas a dormir nos ouriços. As melhores coisas acontecem num tempo sem memória. E é por isso que te escrevo.
Não me lembro dos pormenores em que nos conhecemos. No fundo, já não me lembro de muita coisa. Sei que virámos costas e demos passos rumo ao futuro, aquele onde hoje estamos, tu e eu. O que ficou nesse interregno de tempo desconhecido? Que caminhos trilhaste? Que escolhas fizeste? 
Às vezes sento-me à janela e vejo os dias a rir. E recuo, recuo, até aos nossos dias. Vieste uns tempos para casa de um amigo, que era aquilo que tínhamos em comum até te conhecer: um amigo. (Agora que penso nisso, também tenho de lhe escrever.) Confesso que fiquei com ciúmes. Que raio, pensei, os amigos não deviam ter outros amigos. Não há tempo para todos. Um amigo exige cuidados especiais, logo, se há mais do que um, outros acabam por não germinar, acabam por morrer. Mas tu vieste. 
Não sei como nem porquê, ficámos amigas. Já não me lembro de muitas coisas, sabes? Havia riso no teu olhar. Havia sabedoria nas palavras. Havia poesia nos teus gestos. No fundo, havia muita coisa que me leva a interrogar, hoje, porque te deixei fugir num tempo e num espaço que não foram meus. 
Durante muitos anos fui-me lembrando inúmeras vezes de ti. Os pensamentos surgiam do nada. Ou do tudo. Do tudo que fomos num momento. E não era preciso ouvir uma música, ler um poema, estar à chuva a ver um concerto do Sérgio Godinho. Lembrava-me porque me queria lembrar. Porque me foste importante. Porque me tocaste no ombro e a marca ficou lá. Porque há muitas coisas que não se explicam por palavras. 
Esses dias findaram e tu voltaste para as tuas origens. Foi com saudade que te acenei da estação e disse-me, em surdina, até breve, amiga. Espero que voltes. Depois liguei o carro e fui embora. É uma tipa fixolas, pensei, não com estas palavras, porque naquele tempo tínhamos respeito pela língua e, acima de tudo, pelas pessoas, especialmente se gostávamos delas. Mas hoje, como tudo isto se está a perder, dou-me ao luxo (ou lixo) de assim escrever, não sem te sossegar. Aquilo que penso está muito longe daquilo que digo. Porque há palavras que só eu entendo e é nelas que te quero guardar.
Entretanto, o tempo encarregou-se de te trazer de novo. Houve uma panóplia de sensações que lutaram entre si para ver qual delas tinha mais força. Estava lá outra vez, no nosso tempo, a escutar-te, a escutar-nos, nas frias noites de Coimbra, depois de calcorreadas umas quantas ruas sem pressa e sem o peso do cansaço. Éramos tanto. Tínhamos sonhos, ideologias. Queríamos ser. 
Olho-me ao espelho. Os cabelos já branqueiam. Algumas rugas rodeiam os meus olhos por onde já passaram tantos rios. O corpo já me fraqueja. E já me esqueci de tantas coisas. Maldita memória que teve de reter tanto de inútil que não me deixa espaço para o essencial. Continuo a olhar pela janela. Vejo-te nos teus ainda vinte anos, mas mais madura, talvez mais serena, característica que ganhamos com a idade à medida que vamos perdendo a força da juventude. Espero por ti. Tenho o vinho a respirar e as rosquilhas de azeite no saco fechado. Não vou brindar sem ti. Vou-me sentar à janela e, enquanto não chegas, vou lapidando a memória. Talvez me lembre da razão que me fez gostar de ti. Mas, se isso não acontecer, não leves a mal. Sabes, é que, no fundo, já não me lembro de muita coisa.
Da tua amiga,

A.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Dói-me a dor que não me dói

Naquele dia acordara com uma estranha dor no peito, como se lhe dançassem alfinetes no coração. Abriu a persiana e viu lá fora o dia a rir. Era sábado. Um beija-flor veio à janela, bateu as asas e voou. A dor diminuiu. Um estranho doce-amargo subiu-lhe à boca. Sentou-se na beira da cama e adormeceu.
Diga-me, ainda sente dor? Lentamente abriu os olhos e viu uma figura baça, pequena, difusa, como se viesse longe no caminho. Abanou a cabeça em jeito de negação.
Havia um cinzento pálido na rua. O sol já se descansava atrás da noite. De súbito a dor, de novo a dor, como um martelar de relógio, tic-tac, sem saber qual mais doía, se o tic, se o tac. Sentou-se na cama e levou a mão ao peito. O coração desacelerava o seu ritmo, parecia minguar-se como o dia. Alguém?, chamou. Apareceu o homem, já não de branco, mas de cinzento como a rua.
Tem de me descrever a dor, vamos lá tentar. Como é? Àquela pergunta seguiu-se um silêncio, não só de palavras mas também de olhares. Observou a rua, agora mais escura, de um negro oposto à cal. Não sei, responde, dói-me sempre mais do que a dor. 
Nisto, o médico começou a atirar frases ao ar, fazendo comparações, analogias, utilizando metáforas para descobrir o tamanho da dor. A profundidade. O sentir. Enquanto ele falava, a dor deslocava-se, já não doía no corpo mas na voz. Na voz dele. Aguda... forte... como lâminas... como agulhas... Havia tantas dores, afinal. Mas ela só sentia uma. Sentia a que lhe saía pelos lábios dele, em cada precisão de esmiuçadas definições. Era sempre aquela que lhe doía e, contudo, nenhuma. 
Voltou a olhar a rua feita noite. O quarto estava quente, contrastando com o frio-azul da janela. O médico continuava a balbuciar metáforas de dor para adivinhar-lhe o sentimento. Nisto, a dor ia e vinha, como o comboio que chega e parte, à mesma hora, da estação. 
Então, não é nenhuma destas que sente? Ela olhou-o, demoradamente, sem saber, de facto, o que lhe doía mais, se o peito, se a mão que a ele leva, se o movimento do braço que a levanta, se o pensar que a dor lhe dói. E sorri-lhe, pela primeira vez. 
Ele continua a insistir, a desenhar dores que nem ela sabia que existiam, num movimento perpétuo de palavras que, às vezes, só ele entende, como se o mundo fosse feito de pequenas cirurgias. Entretanto fala-lhe da importância dos sintomas, temos de descobrir a origem da dor e o quanto ela dói para aplicarmos as medidas corretas. É como se, à semelhança de um pintor, só aquela cor, aquele exato tom, nem mais, nem menos, fosse possível para terminar o quadro. 
Nisto, inspirou fundo, como se tomasse o último fôlego, e dá-lhe todas as respostas do mundo. É uma dor como se nunca tivesse visto o nascer do sol; como se nunca tivesse andado descalça na relva; como se não houvesse mundo; como se os palhaços não soubessem rir; como se me tivessem roubado a última carta que escrevi; como se só houvesse escuro como esta noite; como se não existissem sorrisos em lágrimas de meninos; como se o ontem fosse apenas uma memória. É isso. É uma dor que me vai apagando e me vai reduzindo a nada, como as estrelas, que só existem porque as vemos; como se eu fosse escrita a giz num quadro negro e, ao fim do dia, me varressem como pó para debaixo da mesa. É esta a dor que me dói. De me sentir gente e, contudo, não ser nada. 

Matrioska

Revejo-me num outro que dói ao ser-se gente. Olho-me ao espelho do avesso e vejo rugas a crescer-me nos olhos. Há dentro de mim matrioskas a nascer. Saem-me pelos dedos e escondem-se nas asas de borboletas que, tricotando danças ondulantes, desaparecem no verde ondeante das colinas. 
Faz frio. É outono-inverno seco. O lume apagado da saudade lembra um outro tempo. Jane encosta-se à janela e empresta os olhos à rua. O céu está carregado de negro. Um vento forte, ruidoso e rodopiante começa a fustigar a costa. As ondas agigantam-se num murmurejar estonteante, varrendo as frias rochas e lançando os pobres crustáceos mar adentro, tal a força do seu batente. No jardim os lírios dormem. A fúria intempestiva das águas paira no mar. Não se fará tarde sem que antes aqui chegue. Mas, por enquanto, os lírios dormem. 
Jane deixa-se embalar pela tarde quase escura. Recosta-se na cadeira de baloiço e olha a praia em reboliço. Lá longe o negro é mais denso. Uma pequena luz difusa desenha traços de temporal. 
Lá longe, nas colinas, as borboletas já não são apenas borboletas. São eu, eu, eu outra vez, são bonecas que me saem do corpo e se sentam, redondas e pesadas, lado a lado, adensando-se até se desaparecerem. E eu aninho-me no colo delas matrioskando-me na sua solidão.
O vento rompe agora o silêncio do jardim e bate, com força, de encontro à janela. Os lírios despertam e sacodem-se violentamente num emaranhado de dor. Começa a relampaguear e a luz cobre de prata o verde-escuro do relvado. Uma palmeira treme, gesticula, atirando-se pelas escadas abaixo num suicídio impetuoso. A janela começa a chorar gotas de chuva que precipitadamente começam a cair, como se o céu se abrisse num dilúvio furioso. 
A casa desfez-se, contudo, em silêncio. Parecia ter migrado de lugar. 
As asas partiram-se e delas nasceram braços. Meninas vão saindo umas das outras, como se se despissem de si mesmas. Despem-se porque crescem. Já não cabem no seu próprio corpo. Olham para trás, sorriem, e desaparecem na penumbra da noite, misturando-se com o verde-água da colina. Depois desfazem-se em espuma, em mar e ondeiam pela praia deserta, beberricando o doce-fel do entardecer.
Não havia maneira de a chuva parar. O vento continuava a gritar, arrancando algumas plantas por onde passava. O jardim, alagado, não sabia o que fazer a tanta água. Os lírios quase asfixiavam nas torrentes. Entretanto, de tudo se fez negro. Dentro da casa, na praia, na vila. Jane tateia às escuras e chega ao candeeiro a petróleo que, nesta altura, está sempre a postos. A chama a clarear ilumina-lhe o rosto cansado. A luz cresce, devagarinho, esbatendo-se nas paredes da sala num tremeluzir fraco. 
Já era muito tarde por dentro da noite quando o temporal cessou. Ouvia-se, lá fora, o escorrer da água, num murmúrio cadente. Havia algumas luzes a brilhar ao longe. A praia parecia ter-se adormecido sob um luar pálido. As ondas descansavam-se em maré vaza e Jane podia, enfim, dormir. Os lírios dormiam, tímidos e encharcados. Alguns ainda estremeciam. 
Volto para dentro de mim. Sou de novo matrioska.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Rosto da Infância

Desce as escadas com a sonolência a bater-lhe nos olhos. Ainda a noite dorme quando se levanta, como se o tempo parasse nas horas escuras. Penteia o cabelo, dá uma última demão à maquilhagem, ajeita o vestido. Bebe à pressa um café feito expresso e sai.
Por entre as folhas das árvores há um fino traço de luz pingando em suaves gotas de inverno. Aperta o casaco sob o frio aguado. Sorri ao padeiro que distribui a massa ainda quente, estaladiça e a cheirar a forno. Sobe-lhe à memória as trocas-voltas da infância e o riso mudo das arrelias matinais, quando, por entre os dedos, formava uma bola com o miolo do pão e a berlindava na mesa. Depois fingia comportar-se, quando a avó, por cima do ombro a espreitava e lhe dizia, bebe o leite, Bárbara, olha que chegas atrasada à escola.  E o tempo, naquela altura, não doía, era feito de uma espuma-canção que sabia a algodão doce nos domingos de feira. Come o pão, Bárbara, ralhava de novo a avó com o olhar cheio de nada. Era cega. Mas não na alma, onde tudo tem lugar.
Bárbara cresceu. De menina se fez gente. De gente se fez aos pedaços. Naquela manhã a chuva suspendeu-se, deixando os passeios escorregadios, as valetas atulhadas de lixo. As luzes começam a acender-se nas casas que madrugam, todos os dias, para os dias de trabalho. As crianças são levantadas à força, interrompendo o leito onírico em que se deitaram, fechando os olhos aos sonhos e abrindo-os ao frio que faz lá fora. 
Entretanto começara a cacimbar. Havia um grito mudo e negro que queria chorar a dor daquele inverno. Bárbara aguarda o comboio que a vai deixar no Intendente. Havia música-canção na chuva miudinha. Havia passos de dança nas águas que lavavam os passeios. 
Bárbara quer o futuro emprestado. Quer saber-lhe as profecias. Quer adivinhar-lhe os cheiros e sabores. Quer-lhe a vida por inteiro. E volta a sonhar, como em criança, quando a avó tinha de lhe bater no ombro e trazê-la de volta ao presente.
Olhe, sente um toque suave no braço, é o comboio. Não vai entrar?
Às vezes era bom que a infância não crescesse, que fosse suspensa num sítio onde nada dói. 

domingo, 30 de setembro de 2012

Quebra-Costas

Subo as escadas do Quebra-Costas em direção à universidade. É manhã, mas o céu apresenta-se pouco claro devido à cama de nuvens negras nele feita. Há um ruído próprio das cidades, vozes dos transeuntes misturadas com o matraquear dos tacões na calçada.
À minha frente segue uma senhora muito velha, sem idade, toda curvada, com um saco em cada mão. De tempos a tempos pára para recuperar o fôlego. Depois, novo avanço. Passo por ela sem a olhar mas, um pouco acima, dou por mim às arrecuas. Precisa de ajuda, pergunto-lhe em tom débil, com a fraqueza nas palavras, não fosse a senhora, por se sentir injuriada, mandar-me com os sacos.
Ó minha filha, deus te abençoe, diz-me, numa voz cristalina, semelhante à de uma cantora lírica. Eu moro já ali. Mesmo assim, dê-me os sacos que eu levo-lhos. Percebo depois que o já ali devia ter sido dito entre aspas. Calcorreámos um bom pedaço de tempo, uns vinte minutos, para ser exata. Com isto, faltei à primeira aula. 
Muito obrigada, minha filha. Entra que eu faço-te um café. Relutantemente fui dizendo que não, que tinha de ir para as aulas, mas aquele olhar verde musgo fazia lembrar a minha avó. Entrei. A porta era de madeira, estreita. Tínhamos de descer três degraus até encontrar a casa, toda ampla, o que significa que todas as divisões partilhavam um espaço único. Não havia luz natural, a não ser quando a porta estava aberta. O espaço não era grande, pelo contrário, cabia por inteiro na minha sala de jantar, pensei.
Vive aqui há muito, perguntei, num impetuoso arrepio de alma. Oh minha filha, desde que o tempo é tempo. E aquele vocativo era o arpejar da saudade da minha avó.
E isso é desde quando, perguntei com alguma malícia no olhar. Há noventa e três, se a memória não me falha. Bem, retorqui a rir, a senhora deve ter tido uma vida cheia! Tive pois, filha, cheia de artroses, então na alma...
Conte-me histórias, pedi. Conheceu muitos estudantes? Como é viver outra Coimbra? É o mesmo, filha, mas mais nova. Do que eu gostava mesmo era dos estudantes à futrica. Nunca soube o que isso era, não sou entendida em letras, mas quando ouvia, olha, ali vai um estudante à futrica, os meus olhos riam como duas laranjas. Devia ser do nome, futrica. Que raio de nome para chamar aos estudantes. Nesta altura ri a bom rir. Depois, recomposta, não fosse a senhora pensar que zombava dela, expliquei-lhe o conceito de futrica. No fundo, tinha vontade de lhe ensinar muitas coisas.
E nunca teve pena de não ter estudado, perguntei através de um sorriso de menina. Oh filha, os tempos eram outros, não podia.
Comecei a enfeitiçar-me por aquela forma de tratamento, era como se houvesse ternura no olhar e por dentro das palavras.
A D. Alberta movimentava-se já com algum custo. Mas brilhava-lhe o olhar e sorria-lhe o rosto. Observando-a bem, pareciam existir traços de juventude. Um eyeliner desenhado em tons sepia, um gosto rubro nos lábios e uma sombra incandescente nas pálpebras. Assim era D. Alberta nos seus noventa e três-vinte anos. E era bonita. A pele lisa e fresca como uma cereja, duas pernas bailarinas, o cabelo louro-trigo a cair-lhe pelos ombros e no olhar a  candura daquela manhã de outono. 
Mas era bela sobretudo naquele coração quebrado pela rua. E pela vida. 
Mas vai todos os dias lá abaixo? Como consegue, inquiri, na curiosidade de um momento. Não, filha, dia sim, dia não. Ao sábado e domingo descanso. Tenho de obrigar estas pernas antes que me abandonem por completo. Não tem ninguém? Filhos, netos... Respondeu-me com o silêncio e com uma lágrima fúnebre. Percebi, então, o quanto custa ser só. Peguei-lhe na mão enrugada e ali fiquei, a olhar o encontro de duas gerações em duas mãos cheias de nada. Não bebi mais do seu sorriso. Penso, mesmo, ter-lhe matado a solidão com um encontro funesto. E creio ter-lhe aberto uma ferida que estava prestes a fechar-se sob um fundo falso de memória. Não me perdoo, D. Alberta, ter-lhe feito esquecer o sorriso, tê-lo feito desaparecer do seu rosto e do seu peito. Não me perdoo não pensar as palavras antes de as dizer. As palavras não passam de encontros em vãos de escada que à noite são varridas para a sarjeta. Não nos perdoo não nos termos encontrado mais cedo.
Por ali fiquei, manhã, tarde, noite. Tantas histórias até às tantas. De rir, de chorar, de pensar. Histórias, apenas, que passam nos lapsos da memória. Era já tarde por dentro do tempo quando me despedi.
A D. Alberta há de continuar a subir a rua com os sacos das compras. Há de parar, uma e outra vez, para respirar. É já ali, há de dizer, sem eufemismos, como se as suas pernas soubessem de cor o refrão de todas as horas. Há de continuar a haver futricas no Mondego, enquanto Coimbra for Coimbra e não apenas canção. Mas o que a D. Alberta não sabe é que aquela manhã de outono ainda me arranha a memória, me faz cócegas ao ouvido como se lhe escutasse ainda o murmúrio das palavras. E, sobretudo, ainda me quebra a alma. 
As escadas ainda lá estão. Quebra-Costas. Agora entendo porque a rua se chama assim. 

Para A.

A. tinha um ritual. Todas as manhãs, depois de acordar, ia beber a bica ao quiosque do senhor, também A., que ficava no jardim defronte à casa. A. tinha olhos verdes que lhe sabiam a sal, cabelos da cor da seara depois de dourada pelo sol e, no rosto, o cansaço de ser gente. De ser gente apenas pela metade. 
O senhor A. já sabia de cor as rotinas das manhãs de A.. Um café e um copo com água servidos com um sorriso. 
Às vezes A. escreve um poema à pressa, daqueles avulso, que depois compõe na melancolia dos dias tristes. Outras vezes chora a veleidade do mundo. Quase sempre ri num corpo que chora, ainda que ao mundo se mostre ao contrário. Tem pena dos outros. E de si própria, mas o ego é secundário. Aflige-se mais com as dores do mundo, aquelas que também choram por dentro de si. 
Até amanhã, senhor A., vou indo, despede-se. Volta para a solidão do seu regaço. Entra na casa cheia de nada. Eu, pensa. Eu e o maldito mundo. E embrenha-se nas palavras, num luto enjeitado de poema. 
No interior da casa, quando o silêncio se sobrepõe ao ruído do dia, põe a mesa num canto da sala. Novo ritual. E janta, assim, a braços com a solidão. E esta  é a palavra que mais lhe dói, por sabê-la ali, tão companheira, tão obsessivamente presente, como um eco que se alastra pela casa. Ainda não inventaram uma fonética diferente.
À noite, por dentro do silêncio das paredes, ouve um outro sussurrar. Talvez sejam as lágrimas que chora em si. Talvez seja o rir-se do quotidiano. E ali, deitada no sofá, uma multidão de dores.
Amanhã compõe-se um novo ritual. Será mais um dia entre muitos que já existiram. A. sorrirá de novo através de lágrimas de camaleão. Ninguém notará. 
Haja o que houver, todos os dias A. há de ir àquele lugar sentar-se a beber a bica, quando as horas, por dentro dos dias, morrem devagar. 
E eu sei quem A. é para mim.


sábado, 29 de setembro de 2012

Histórias pintadas


Este é um conto simples. Temo, até, não ser boa com as palavras.
O elétrico passou às seis em ponto, nem mais, nem menos. Àquela hora, na paragem, amontoava-se uma série de trabalhadores, operários fabris que tinham acabado de largar o turno do sono. Fazia frio. O sol, preguiçoso, ainda dormia enroscado numa nuvem pequenina e espreguiçava, de quando em vez, um ou outro braço. Era inverno e, como se sabe, o sol de inverno apenas fustiga a pele, indelevelmente, quase sem a tocar.
Manel, rapaz para os seus vinte e sete anos, sentou-se no lugar do costume, dois bancos atrás do condutor, junto ao vidro. Gostava daquele assento, permitia-lhe sonhar outras vidas. Por exemplo, ali, debaixo daquele castanheiro, desenha uma jovem, em contornos poéticos, compenetrada na leitura e alheia ao ronronar do elétrico. De vez em quando esboça um sorriso, como se conversasse com o livro. Pinta-lhe os cabelos em tons de romã e, por entre o brilho do olhar, umas sardas sorridentes. Esculpe-lhe, também, um sorriso bonito. E suspende-a ali, num óleo sobre tela colorido. Mais além, numa casinha térrea de madeira, inspira o cheiro a lenha que se esvai em fumo branco pela chaminé. Lá dentro, sentados lado a lado, um casal de velhos, roído pelos anos, toma o pequeno almoço antes de sair para a horta. E inventa-lhes uma cumplicidade que só ele sabe e conhece, uma cumplicidade cinematográfica, cujo desenlace é o amor num corpo a dois. Adiante, por entre a seara orvalhada e reluzente, traça, com lápis de carvão, duas ou três mulheres, no vigor da juventude, a entoar cânticos negros, enquanto as mãos em sangue colhem o trigo. Já perto da fábrica onde trabalha, numa boutique finesse, parece ver, por entre a penumbra do nevoeiro, algumas senhoras chiques a comprar tecidos da moda que se desdobram em gargalhadas.
A mulher de Manel era costureira, não de profissão, mas por necessidade. Guardava o sorriso dentro da caixa de costura pois os dias findavam sempre em tristeza.
Mas voltemos a Manel, operário a contragosto, encostado à ombreira do silêncio da fornalha. Voltemos ao encontro do seu olhar. Adiante, numa fonte quase seca, alguém espera paciente pelo encher da bilha. É uma rapariga franzina, de corpo esguio e olhar sonhador. Levanta-se todos os dias cedo para, antes de ir para a escola, pôr o gado a pastar, fazer o café para os irmãos mais novos e ir à fonte. Olha o elétrico, sobranceira ao vão da melancolia, sonhando com a vida por dentro dele. Um dia, pensa, um dia hei de andar de elétrico, com um chapéu nos cabelos e a carteira ao ombro, como nos filmes franceses. Sorri a Manel, como se para lá daquela linha não houvesse mais nada. Este acena-lhe, também, um sorriso. Há, contudo, desgosto nos olhares. 
O dia findou. É mais fácil assim, quando a imaginação poética ajuda a passar as horas, como se apressasse os ponteiros do relógio para mais tarde. O elétrico só chegava daí a uma hora, portanto, às dezoito. Manel esfrega as mãos e sopra-lhes um bafo quente. Vai até à beira-rio para queimar aquela hora. O sol já se pôs, é inverno e ele deita-se mais cedo. Ficou, assim, o frio, mais agudo do que o da manhã. Ao longe, bem distante das margens do rio, navega um barco, talvez pesqueiro, não dá para divisar, pois só se avistam as luzes. Por outro lado, é noite. 
De regresso a casa, numa montra da cidade, Manel detém o olhar num quadro particular. Era uma pintura simples, que não obedecia a grandes interpretações, mas que, para ele, tinha a beleza camuflada de uma musa. A tela exibia uma bailarina, em pose artística, num movimento de pontas em relevé gracioso. Mas o mais espantoso era o fato que ela usava, um vestido feito de algas, e as conchas a servir de cabelos. E os olhos não eram olhos, eram dois rouxinóis dourados. E o olhar de Manel ficou lá, a descansar por dentro das algas. 
A vida de Manel é feita de contrários. Ri quando quer chorar, parte quando quer ficar, sente quando quer iludir. Para trás, bem para trás, ficam os dias de outrora a rir. 
Amanhã o elétrico vai voltar a passar, às seis em ponto. Novas histórias vão nascer no olhar de Manel, diferentes das de todos os dias, pintadas com as cores de um arco-íris em tons pastel. A mulher vai dizer-lhe adeus na aduela da janela, por entre vasos de lírios mortos. Os filhos ainda dormirão o cedo da manhã, envoltos em cobertores de afetos e lençóis a cheirar a madressilva. Imperdoável, contudo, não terem motivos para sorrir, ainda que não o saibam. Quanto a hoje, hoje não foi senão uma metáfora do amanhã. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Cão com lágrimas


Oxalá tivesse uma história diferente para contar, daquelas que acontecem mesmo, mas só aí, nas histórias e por dentro delas.
Era um domingo de manhã, já o sol ia alto e as nuvens tinham adormecido num céu longínquo. Parei o carro junto a um café de beira de estrada, num sítio do interior do país. A paisagem circundante era de um verde que feria a vista. Um verde virgem, puro e imponente, diferente do verde fusco dos arredores das cidades. Havia um silêncio inquietante, apenas cortado pela natureza bruta: um esvoaçar de pássaros, a brisa quente de fim de verão a assobiar por entre as folhas das árvores, o sopro de um qualquer sardão que se escondia por entre as ervas, um ou outro zumbido de insetos que até eu, entendida em zoologia, desconhecia. Talvez na aldeia existissem vidas diferentes, ignotas vidas para quem dali não é.
Aspirei aquele dia. Inspirei-o mesmo, como se aquele ar quase intáctil me fosse renovar por dentro. Fechei os olhos e deixei-me ali ficar, encostada ao carro, quase num adormecimento dolente e breve. Era a calma daquele lugar a entranhar-se-me na pele e a transformar-me por inteiro. A sua memória ficou em mim, como uma película fotográfica que se imprime e coloca numa parede. De facto, fotografei diversas imagens que até hoje em mim continuam coladas ao negativo da memória.
Abri, pois, o olhar àquele sítio. Quis penetrar na sua história, nas suas gentes, quis conhecer um outro lado da vida, aquele que dói com um sorriso, soube-o daí a instantes.
O estabelecimento era um vulgar café de aldeia, porém, não tão vulgar como o que os meus olhos viram de seguida. E hoje, penso, já não sou a mesma. O café, dizia, era velho. Tinha uma porta estreita, na qual estavam penduradas umas fitas de plástico, daquelas que tendem a dissuadir os insetos de entrar. Havia também uma janela de madeira, já gasta, muito gasta, cujos vidros refletiam uma luz fina e limpa. Entrei, não a medo, mas com a curiosidade que me é característica. O espaço estava vazio. Olhei ao meu redor e não vi outra coisa senão ruína. A ruína de uma vida. Ou de muitas. Dei um passo, outro, e a cada um o chão gemia, como se a madeira, também velha, se queixasse com dores. Havia uma ou outra tábua solta. No entanto, o chão estava varrido. Bom, pensei, não é tão mau como parece.
Eu era a típica rapariga da cidade, habituada a frequentar espaços bonitos, imaculados, casas de chá, wine houses, restaurantes com música ambiente e conversas em tom baixo, teatro, cinema, e tudo o que demais acontece nas metrópoles. Deparar-me com aquele espaço era, no mínimo, um atentado ao meu pudor.
Duma salinha contígua ao café saiu um homem, velho, tão velho como todos os dias que já morreram. Nova deceção. Como poderei inteirar-me da história destas gentes com este senhor que deve perceber tanto da vida como eu de astrofísica? Redondo engano. Soube-o também mais tarde. Soube-o pelo rosto cansado daquele homem que sabia mais da vida do que eu alguma vez poderia saber. Porque aquilo que se aprende não é só o que vem nos livros de ciências, dizia-me.
O balcão estava gasto. Pedi um café que o senhor prontamente foi tirar. Apesar do peso da idade que as suas mãos carregavam, ainda era visível uma certa agilidade. Espreitei para dentro do balcão, qual menina que anda a descobrir o mundo, e vi mais um resto de solidão. Deitado, já velho e cansado como o velho, estava um cão.
Bebi o café. Bah! Intragável. Nunca tinha bebido um café tão insalubre. Por momentos pensei, não estou em Portugal, mas depois lá me fui apercebendo que sim, pela dicção fúnebre das palavras com que o senhor Bernardo, era esse o seu nome, ia quebrando o silêncio daquele fim de manhã domingueiro.
Devia ter ido à missa, dizia-me, mas há muito que rompi com deus. Assim olhe, venho para aqui entreter-me, à espera que alguém me chame ou que alguma rapariga jeitosa me pisque o olho. Sorria. Sorria com o olhar todo. Nesta altura apercebi-me do encanto que é ser velho. Até nos lisonjeios são dóceis, pensei.
A menina tem fome, perguntou-me. É quase meio-dia, vou para cima que a mulher deve ter o almoço pronto. Não quer comer connosco? Fiquei um pouco relutante. Afinal, ainda que simpático e educado, eu não conhecia o velho. Mas, ele mal consegue andar, não oferece perigo e, de facto, confesso que a fome já aperta. Venha, faça-nos companhia. Anda Bartolomeu. A esta frase levantou-se o cão, a coxear e com o pelo doente. Era cego de um olho e coçava-se frequentemente. Olhou-me, aproximou-se, cheirou-me as mãos e lá seguiu escada acima com o peso da idade e da doença. Passámos pela salinha que ficava lado a lado com o café. Nova ruína. Do teto velho, alto, a fazer lembrar uma casa senhorial, mas em tons de pobre, pendia uma trave que, por sua vez, era sustentada por uma coluna também em madeira. Havia pedaços de tinta que se descolavam da parede. As escadinhas que davam acesso ao andar superior foram uma nova aventura. Novo ranger, como se a cada degrau lhe doesse um dente. Cheguei a pensar que as escadas iam ruir sob o nosso peso, tão frágil era a sua vida. Quando, finalmente, galguei o último degrau respirei de alívio. O interior da habitação não era diferente do que já tinha visto. Pobre, decadente, ruinoso, mas asseado. Valeram-me estes ares de limpeza para não ter desistido daquela gente, pensei com egoísmo, centrada em mim, como se o mundo fosse só um lugar belo. Não era. Havia outros mundos dentro do mundo. Mundos que choram através de um sorriso.
A mulher do senhor Bernardo era velha também. Mas, à semelhança do marido, bailavam-lhe nos olhos dois sorrisos. Comemos. Conversámos. O cão dormia.
Fazia-se já tarde quando me despedi. Por ali ficou a minha memória, agarrada às paredes negras do café, a jusante das tábuas gastas e velhas, deitada numa cama de ferro com lençóis a cheirar a feno.
Mas nem tudo ali era velho, decrépito, podre. Não o olhar a rir daquele homem carcomido pelos anos já mortos. O cão veio também despedir-se. No olho que via pude observar-lhe uma lágrima. E ali ficou a ver-me partir enquanto eu, pelo espelho retrovisor chorava, também, aquele abandono.
Passados uns anos voltei lá. Tive saudades do olhar torto do senhor Bernardo. Até lhe comprei uma prenda, um telemóvel, para ele poder dividir comigo a solidão. Fiz-me à estrada. Só parei quando lá cheguei, ainda que tenha perdido outros cafés, outros sorrisos. Parei o carro e saí à pressa. Desta vez não quis sorver a natureza. Fica para depois, pensei. Fazia frio, senti-o pelo arrepiar da alma. Só posteriormente percebi porquê.
A porta estava fechada e as fitas não estavam lá. Talvez dançassem por dentro. Bati. Uma. Duas. Três vezes. Silêncio. E o frio. Foi então que comecei, de novo, a fotografar aquele espaço. A fechadura tinha uma teia na qual a aranha descansava. Os vidros da única janela estavam embaciados de sujidade e a cortina, por dentro, corrida. A morte, pensei, só pode ser a morte. Chamei o cão. Nada. Olhei para a casa outrora habitada e estava, também, morta. Havia uma peça de roupa preta meio caída numa corda. Sinal do luto. Abri o portão e subi a escada. Rodei a maçaneta da porta e esta abriu. Entrei para o aspecto desolador da casa. Estava vazia. Havia apenas, num dos parapeitos da janela, uma jarra com o resto de uma flor. Morta. Mas sorria. Deixei-me cair e chorei. Chorei todas as lágrimas que consegui. Depois, vencida pelo cansaço, tirei do bolso o telemóvel, escrevi o meu número na caixa e desci. Na janela suja do café desenhei um sorriso que, mais tarde, com a chuva, se desfaria em choro, em lágrimas caídas pela quelha do telhado. 
Aquele dia cinzento chegara ao fim. Na casa não ficou apenas a memória, mas também a rosa sangue que chorei por entre os espinhos. Entrei para o carro, fechei os olhos e não ouvi mais nada. Sabia de cor todas as palavras que me asfixiavam a voz, que não me deixavam sequer pensar. Via cada ruga do rosto do senhor Bernardo em contornos violáceos. Sentia a lágrima do Bartolomeu a bater-me na cara.
Ainda hoje espero o telefonema do senhor Bernardo, apesar de saber que o telefone não vai tocar.
Em mim fica a memória do dia em que, por entre escombros e ruínas, nasci. Fica a saudade do rosto a rir do senhor Bernardo e da lágrima do cão cego.  Fica, também, a certeza de que há sempre um outro ver para o que vi. 

domingo, 23 de setembro de 2012

O livro

O livro era bonito. Tinha uma capa macia, suave à passagem do toque. Era cara. Também aveludada. Debruada a linha de ouro. Pousei o livro no colo, abandonei a marca da leitura a meu lado. Toquei-lhe. A marca ficou lá, indelével, como traço fino no papel. Acariciei, uma vez mais, o frontispício, passei os dedos pelo título e a minha pele eriçou-se com as palavras.
Sentei o livro no regaço e afaguei-lhe os cabelos. Contra o meu peito de páginas desfeitas o apertei em solidão. Encostei-o ao ouvido e escutei-lhe o murmúrio do cantar.
Deitei-me, enfim, no veludo da sua encadernação e contei-lhe histórias de ir dormir. Descansei-me no embalo das palavras e no perfume fresco das folhas ainda virgens.
Adormeço.
E o livro por abrir.

sábado, 22 de setembro de 2012

Palhaço que dói





Sinto-me palhaço estranhamente em mim.
Dói-me o nariz e as botas são-me grandes.
Doem-me os pés.
Dói-me, sobretudo, o sorriso que não dou.
Do casaco tiro um corvo que num ápice é pomba branca.
Doem-me as botas.
Dói-me o laço no pescoço.
Dói-me o riso dos meninos.
Dói-me a vida a sussurrar por dentro das calças.
Dóis-me. Tu em mim.