segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Carta para o meu filho

filho, escrevo-te do lá-longe, onde não há mantas nem cachecóis, nem entardeceres de praia ao sol-pôr. morri-te. e deixo-te estas linhas com as palavras que não te disse, ou, se disse, já as esqueci.
hoje lembrei-me de ti. na verdade, lembro-me todos os dias, não sei bem como, pois morri-te. deve existir um cérebro de mãe que nunca morre. foram tantas as coisas que lembrei que não sei por onde começar. rias. e os teus olhos enchiam-se de luz. 
a chuva fere-me o telhado em gotas de pinga-amor. tu dormes, imune à chuva, imune ao mundo lá-fora. 
doem-me as mãos, aquelas que te amparam o choro. doem-me os olhos do cansaço, das noites insones, do ter cá-dentro um amor maior que é o teu.
sabes, a vida é feita de adendas, hora-a-hora, dia-a-dia, como se fosse uma manta feita a retalhos. no fim, tudo se conjuga, tudo faz sentido, menos a morte. mas disso não te falo, não agora que ainda é o começo.
anda, senta-te aqui, vamos falar de amor, daquilo que nos une sem palavras, sem quês ou porquês, simplesmente porque sim. às vezes há metafísica nas palavras que se fecha numa hermenêutica que ninguém entende. sabes, só o sentir é bom. e os sonhos não são senão a poesia da alma. por isso, sonha, faz de ti o poeta da tua vida, o artesão do teu caminho. e não deixes que te expliquem todos os porquês. só o sentir já é bom.
dói-me o corpo pelo peso dos anos. já me falta pouco, bem sei. quero deixar-te presa ao peito a saudade. quero imprimir em tons sépia um abraço persistente. quero que te lembres, sobretudo, quando eu for velhinha e os olhos me fugirem para as mãos cansadas, que o amor é a única sedução possível.
hoje sei que não passo de um vácuo de memória, de um resto de ser. e eu espero que tu sejas poeta-canção.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O beijo (ou, o sonho dentro do sonho dentro do sonho)

o reencontro deu-se após dez anos. era um dia morno-quente, um fim de tarde soalheiro. havia pássaros a rir. 
estás bonita, quando, na verdade, queria dizer-lhe, porra, porque te deixei partir? ela respondeu com um sorriso, quando, na verdade, quis morder-lhe aqueles lábios cheios.
falaram dos tempos da universidade. das conversas à lareira sob o frio aguado do inverno, entretidas com copos de vinho, das considerações filosóficas sobre o existir, a felicidade, a metafísica.
lembras-te daquela vez em que tu e o Tiago quase se pegaram a discutir deus?
ela riu-se e ele viu-lhe no olhar o mesmo brilho de há dez anos. porra, porque não te impedi de partir naquele maldito dia?
lembro. ainda há dias falava disso quando dizia a uma paciente que, se os médicos não nos salvam, muito menos deus o fará. e dei por mim na nossa sala, a discutir com o Tiago essa figura transcendental. o que é feito dele? tenho saudades... 
e de novo o brilho no olhar. e de novo a maldita interrogação e a vontade de voltar àquele dia para a impedir de partir.
o Tiago está na Índia, numa missão.
pois, só podia. sempre vi nele um humanista, nem podia ser de outra maneira. mas e tu, fala-me de ti.
(falo-te de  mim, pensou. de mim não há nada a dizer a não ser que te amo, exatamente como no dia em que o soube, quando discutias com o Tiago a (não) existência de deus. és linda quando te enfureces, sabes? naquele momento apeteceu-me puxar-te dali para o meu quarto e beijar-te o corpo sob a luz da lua como reflexo. mas esse dia ficou no lá-longe. porque não te impedi de partir. à tua pergunta queres que fique foi só o silêncio. e entraste naquele comboio sem sequer olhar para trás. nem sei em que banco te sentaste, se é que isso é importante.)
sobre mim não há nada a dizer. sorriu. e de novo o silêncio. de novo a cobardia de lhe dizer que a ama, de a tirar daquele restaurante e fazer amor com ela naquela tarde solarenga. o estio de novo adiado.
lembras-te daquele dia em que chegaste a casa tão bêbedo depois de uma Queima que tive de te vestir o pijama? mal conseguias falar e perguntaste, no dia seguinte, se te tinha violado. o que me ri.
devias tê-lo feito.
desculpa? ruboresceu. o brilho no olhar secou. 
porquê, Pedro? no fundo, ela sempre soube.
porquê, o quê?
ela levantou-se e foi até ao varandim beber o resto do vinho. foi aí que ele percebeu que ela sempre soubera. ele acercou-se dela, agarrou-a pela cintura e beijou-lhe o pescoço parcimoniosamente, enquanto as suas mãos percorriam o seu corpo ao encontro do seu sexo.
o sol já ia alto quando acordou. levantou-se, olhou-se ao espelho e viu duas rugas profundas nos olhos, não sem recuar dez anos e pensar como seria a sua vida se ele, à pergunta queres que fique, tivesse dito sim.
porquê, Pedro, porque me deixaste partir se tu-eu nos gostávamos?
toca o telemóvel. ela acorda ainda com a sonolência comum dos dias frios de domingo.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A bailarina e a chávena de chá

era uma vez todas as vezes. esta era para a caixinha de música. a caixinha de música tinha uma existência simples, servia apenas para te embalar. mi, lá, dó, uma cadência de notas para encantar petizes. às vezes calava-se e tínhamos de lhe dar corda. então, lá se levantava a bailarina, com os braços em pose a girar sobre si mesma. e o seu canto era o de pássaros em beirais de telhados de zinco. 
e eu bebo o chá nas tardes mornas de outono. e o teu entretém a adormecer, com os olhos da bailarina cansados a pesarem-lhe no rosto. e ela lentamente cai para se deixar dormir. é o embalo que lhe dói. 
é tarde, é já muito tarde. o chá arrefeceu na chávena esquecida no vão da janela. dói-lhe o cheiro de ser chá. a bailarina deixou de dançar, a caixinha deixou de tocar e os teus braços procuram outro embalo, talvez o da chuva que começou a cair. dói-me a mim também qualquer coisa, penso que o teu choro. acorro(te) num ímpeto de abraço. pego(te) e beijo(te) as faces coradas. ris. e a caixinha de música a necessitar de afeto. é o embalo que lhe dói.
esta é a história da tua caixinha de música, aquela que te adormece em sonhos bons, aquela que te desperta para um acordar de beijos. sabes, não a deixes morrer, ainda que o embalo lhe doa.
mas um dia a caixinha de música não tocou. pensávamos que era da pilha, mas não. a música sepultada num funeral por vir. a bailarina prostrada aos pés do piano com as pernas partidas. é um dó vê-la. a sua voz transformada num choro inundado de lágrimas. a caixinha de música morreu, como morrem todas as coisas. fim.

Quero

quero, de novo, as noites por inteiro, a tela onde guardo as memórias que não são minhas e os passos que ficaram por dar. 
quero o gargalhar de fim de dia sem ponteiros, nem relógios, sem esgares de dor, nem subtis afonias.
e, no entanto, tu.
quero a vida que me fugiu por becos de saudade. 
quero o sol de verão a enrugar-me a pele, o vento outonal que me fustiga os cabelos, o frio que se me enrola em cachecóis de pura lã, os espirros matinais dos pólenes primaveris. 
quero. e, contudo, tu.
quero. mas já não sei ser sem ti. quero o que ficou lá atrás, mas também o futuro contigo. e esta dicotomia que me dilacera, como se não houvesse ontem-amanhã, mas apenas o hoje, turbilha-me nas veias, aquece-me a memória e incendeia o meu peito em tons de mel e fuligem. quero, porém, tu.
sabes? quero(te). quero(nos). quero(me). e todos estes pronomes são apenas um: tu.
há um quê de doente na ponta dos meus dedos: não sei se a obsessão de te querer, se a esquizofrenia de te não ter para sempre. sim, há um quê de doente na ponta dos meus dedos. e toco-te, para ver se és real ou se não passas de uma alucinação. a alucinação de te querer, querendo(me)(nos).
quero tanto e tão pouco. ali, o teu abraço; além, o teu sorriso; aquém, o teu olhar.
quero(me). e, não obstante, tu.

Imagem: www.luciamrusso2.com



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Folhas caídas

era uma terça-feira. o sol descia a pique a colina verde indo esbater-se no prado quente. os animais da quinta dormiam. os velhos descansavam por dentro das casas.
anda, disseste, vamos ser felizes. e olhavas o céu, desenhando-lhe nuvens dançarinas. à noite sorrias às estrelas, como só uma menina sabe rir. como tu. e eu já amava os teus ainda longínquos cabelos brancos e as tuas mãos de rugas feitas. nunca to disse senão agora que o chão me falta.
anda, vamos ser felizes, dizias, por entre as margaridas do jardim. e as flores riam contigo, como se de borboletas se vestissem. podem passar mil vidas mas o teu sorriso nunca morre.
hoje sou velho sozinho. observo as nuvens e as estrelas, mas faltam-me os teus olhos. os campos de margaridas murcharam. até as couves no quintal do vizinho estão tristes de te não ver sorrir. e continua a ser terça-feira. aquela terça-feira.
hoje sou velho sozinho. falta-me o café feito ao lume e a manteiga a escorrer da torrada. falta-me o sobretudo limpo a seco que insistias todos os anos mandar para a lavandaria, não obstante a minha resistência. falta-me o chá quente ao fim da noite e o aconchego das mantas outonais, quando o frio teimava em perturbar-me as mãos. falta-me tanta coisa, mas, no fundo, falta-me apenas uma.
nunca te disse que amava os teus cabelos brancos. nunca te disse que amava os teus olhos de sempre-menina. nunca to disse senão agora que o chão me falta. e o chão não é onde poiso os pés. o chão é o teu regaço, onde eu deitava as minhas lágrimas sem que as visses. porque no meu tempo um homem não chorava. sim, um homem não chora senão agora que o chão me falta. nunca to disse.
o alpendre ainda lá está à tua espera. e a tua cadeira de baloiço onde costumavas ler e sonhar. acima de tudo sonhar. sento-me nela para sonhar também, mas faltam-me os teus olhos.
anda, vamos ser felizes, disseste-me um dia. e eu, que não passava de um idiota, recusei-te.
hoje sou velho sozinho. fazes-me falta. nunca to disse senão agora que o chão me falta. e o chão és tu.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Outono

o outono está a chegar. sinto-o pelo frio rasante nos dedos. sinto-o pela parca luz que me entra pelas janelas. há já um cheiro a castanhas na saudade, embebidas em licor de jeropiga. 
o chão atapetado de verde sucumbe. os caminhos ir-se-ão fartar de cores. as aves migrarão de lugar à procura de outros ninhos: os céus encher-se-ão de asas. 
os figos pingam em mel das árvores prenhes. alguns secaram ao sol de verão e jazem no chão, mortos. outros, envoltos nos bicos de pássaros, saciam-lhes a fome. 
tenho medo que o tempo passe. tenho medo que cheguem outros outonos e que tu partas sem eu te conhecer. enchem-se-me os bolsos de saudade daquilo que ainda não somos. é como se eu vivesse por antecipação. não quero pensar nisto, mas tenho medo que tu me vás. fica, digo-te então em surdina. e agarras tão firme a minha mão com os teus dedos de pequeno encanto. 
mas hão de chegar outros outonos. terei rugas de te chorar pequeno, quando olhar lá para trás. sentar-me-ei à janela a tecer a memória. vou pegar-te uma e outra vez ao colo, mas tão-somente no beco da saudade. ver-te-ei a rir, a chorar, limpar-te-ei as lágrimas num afago. não. não me agradeças. não tens de agradecer. eu sou a tua mãe e mãe escreve-se com amor.
por ora olho-te demoradamente. sem tempo. sem pressa. no entanto, pergunto-me: e eu? e tu? que há de ser de nós?

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O amor

Os outonos já não são iguais. As manhãs que orvalham a terra são mais frescas, mais calmas. Apesar de ser tarde. As sementes há muito que desabrocharam e o milho restolha nos campos mornos. Do verde ao dourado foi um instante, um lapso de tempo. 
Tu ainda dormes. A tua respiração contínua abranda uma dor que em mim fica todos os fins de tarde, quando o dia morre. 
Bebo um café apressadamente, pois os teus braços chamam-me. Ris-me com o olhar. Falas-me com o sorriso que ainda não dás. Mas que eu vejo. Ou sonho. 
Há um silêncio que nos fere. Digo-te palavras que não entendes e olhas-me de soslaio, como se eu fosse louca. E sou. De tanto te amar!

terça-feira, 16 de julho de 2013

Para a Minha Irmã

Passa o tempo devagar e,
Antes que chegue o fim, vamos
Rir juntas, como fazíamos lá
Atrás, na nossa meninice esquecida.

Até nos doer a barriga.

Mas, se nos perdermos no meio desse riso,
Inteiro, intacto, inalterado,
Na sombra de um choupal de beira-rio,
Havemos de lembrar tantas coisas como 
Aquelas que já não nos são.

Irmã. Sem ti os meus dias ficariam pela metade,
Remendados, qual
Manta de retalhos corroída pelos anos, sem que a 
(l)Ã, contudo, se desfaça. 

sábado, 15 de junho de 2013

Ano 2050

há muito que me morreram os pássaros, aqueles que se aninhavam nos meus beirais em profilaxias de beijos. 
hoje já só há o canto triste e mole das cegonhas que morrem ao nascer, pois já nem meninos entregam. esses nascem-nos dos ventres inchados.
hoje já só há borboletas em casulos de memória. e os ósculos às flores morreram aí. 
hoje já só há encanto de ovelhas em documentários de fim de tarde. a lã já não é pura-virgem, é entrelaçada em fios sintéticos de dedos cansados. 
os rios secaram. os mares estão mais pequenos. as cidades cresceram. as aldeias perecem em óleos sobre tela expostos em museus de luxo. 
há muito que me morreram os pássaros, os que me vinham debicar às janelas. e eu, por dentro delas, existia em sangue e vida.
hoje já só há memória no lugar do tudo. o tudo que eu não conquistei, porque já só existo em sombra, ou talvez naquele pedaço que me carregas. sabes porquê? porque há muito que me morreram os pássaros. 

sábado, 8 de junho de 2013

Avó dos olhos verdes

tinhas no olhar um rir de menina, um olhar onde desaguavam tantos mares.
dizias que, quando eras nova, todos te gostavam. e eu acreditava-te. diziam, também, que tinhas umas belas pernas, as mesmas que, cedo, te iriam fraquejar.
foste avó-mãe quando o outro regaço me faltou. e faltou. tantas vezes. foste afago. foste afeto. foste o deus-sol que me acariciou os dias.
as avós são duas-vezes-mãe, ouço. tu foste mãe. sempre.
hoje choro-te. choro-nos. e eu não sei onde estás: se no aspergir de uma flor, se no canto da noite, se na luz de uma estrela, se num rir de criança. ou se nisto tudo. 
porquê, avó? porque me morreste sabendo (te) (nos) que o amor é infinito?
hoje precis(o)ava-te aqui. que os teus dedos penteassem os nós dos meus cabelos. que o teu abraço me enlaçasse num refúgio. mas tu morreste(me). e de ti já só tenho o olhar verde a rir e a tua voz pequenina a pedir para te lavarem os pés, porque as tuas pernas, que um dia foram poesia de (en)canto, te não deixam.
porquê, avó? porque me morreste se sabias que (me) (nos) fazias falta?


sábado, 1 de junho de 2013

Eu-Criança


Quando eu era criança o mundo era cor-de-rosa. E azul. E verde. E amarelo. E violeta. Bem, na verdade era um arco-íris sempre a ser. Menos para os adultos, que eram daltónicos e queriam que crescêssemos à força. E crescemos. Teve de ser. Faz-te à vida, ouvia em todas as direções, como se ser criança fosse uma guerra. 
Quando eu era criança a vida era a fingir e os olhos riam como palhaços. Menos à hora do dormir, quando os sonhos do dia se transformavam em trevas finas de escurecer e o quarto, mergulhado na penumbra, desenhava nas paredes pesadelos de monstros que não existiam. Só em nós.
Quando eu era criança as horas andavam para trás. Era como se os relógios vivessem ao contrário, de pernas para o ar. Contudo, não tínhamos relógios. Nem de sol. Do sol, só o afago do quente-morno dos seus braços.
Quando eu era criança os brinquedos que não tive sorriam-me das montras citadinas. Eu parava nos passeios e ficava a imaginar. Apenas. Que, naquele tempo, os brinquedos eram apenas uma ilusão. E à noite, por entre o acolchoado dos lençóis, inventava nomes às bonecas-filhas que tinham sido dadas para adoção daquelas lojas que à noite se fechavam. E as bonecas choravam o abandono. E eu chorava com elas. 
Quando eu era criança já não era criança. Cresceram-me rugas nos olhos. Os cabelos esbranquiçaram. As pernas fraquejam-me. O coração chora a saudade. Hoje já sou só criança lá, onde aconteceu. E só quando choro me liberto de ser criança. Esvoaçam as memórias. Viro o relógio de pernas para o ar mas ele, teimosamente, volta ao seu lugar, qual íman do tempo.
Quando voltar a ser criança serei aquilo que não fui. Talvez um palhaço a rir. Talvez um saltimbanco de circo. Talvez apenas uma memória. Sim, uma memória, daquelas que me espreitam por trás da porta e dizem, anda, vem brincar, tens tempo de crescer. E serei feliz como, não obstante, fui.

sábado, 18 de maio de 2013

Eu(s)

Há sempre um quê de saudade por entre as mantas da solidão. É nesse tempo e nesse espaço que nos pertencemos, como se a vida fosse só lá-dentro. De nós. Onde os ruídos são escassos e as palavras a mão que embala o berço. 
Não há senão gritos mudos na solidão, essa porta aberta por onde entram nenhuns, onde os algures são espaços vazios. Onde a vida flui como lava incandescente. Onde os outros não são senão pedaços. Só lá. Em nós. 
E cai a tarde, neste espesso de nada, na quietude do lugar que é em mim, na lassidão do tormento que se foi porque não é. As ondas revoltam-se lá longe, no mar. Mas não aqui, em mim. Não hoje. Hoje só o silêncio. E é no silêncio que me desfaço como espuma de nada. É no silêncio que escuto vozes do lá-longe, como eus difusos num espaço sideral. Sim. Porque eu sou muitos eus, cada um marcado pela presença de um tu, de um vós. E é nestes eus que me enrolo para me guardar, como se fosse para sempre casulo e nunca borboleta. 
Agora só o ritmo do tempo marcado a passo de relógio. E a bruma da saudade que teima em ficar, a ocupar esse espaço-vazio-de-nada. Como se fosse uma moldura vazia. 
E quando supomos que tudo é, nada é. E do resto. Mas do resto só o silêncio. E eu? O que sou? Um resto dos outros. 

domingo, 12 de maio de 2013

Filho-Mãe

Vamos iniciar esta viagem juntos. Eu desconheço o que é ser mãe. Tu ignoras o que é ser filho. Para já só o amor, aquele que não sabemos o que é. Nunca sabemos. Até sê-lo. 
Para já só o medo. O medo deste trilho que vamos começar juntos. Tu de um lado. Eu do outro. A par. A passo. Vamos cair algumas vezes, mas levantar-nos-emos com os olhos postos no futuro que nunca chega. 
Para já só o erro. Também iremos errar muitas vezes. Eu em ti. Tu em mim. Perdoar-nos-emos, porque vamos estar sempre a aprender, como se a vida-filho-mãe fosse um manual de instruções sempre a acontecer. 
Para já só a ânsia. De querer que acertes em todas as escolhas que farás, ainda que, a falhares, me doa mais a mim do que a ti. Mas tu nunca o saberás. Porque a força-mãe que em mim habita me impelirá a nunca te deixar cair. Mas vais cair. Sei que vais cair. Porque um dia não vou estar lá.
Para já só a certeza. De que nunca te faltarão flores. Não as de jardim, que no inverno morrem. Ou adormecem, apenas. Mas as flores que à noite te vou contar em forma de histórias para crianças, onde tudo acontece e nada é. Onde os sonhos se desenrolam como novelos de lã coloridos. 
Para já só o sol. Não o astro-rei que incendeia o céu, mas aquele que tu aqueces em mim quando esbracejas à procura de lugar. Quando te aconchegas no teu canto-mãe para dormir a sesta. Ou quando esperneias porque já não cabes em ti.
Para já só a luz. Aquela que eu vejo quando se apagam todas as estrelas e a noite cai em forma de breu. Mas ela está lá, a brilhar num qualquer canto do meu olho e a acenar-me um final feliz. 
Para já. Para já só o amor. Irei partir antes de ti. Terei de partir. Forçosamente. Mas levarei comigo todos os teus momentos de ser. Os grandes e os pequenos. Os gestos e os risos. Os doces e os amargos. As quedas e as lágrimas. Os abraços e a falta deles. Levo comigo o amor. Aquele que só acontece sendo. Não vou querer que chores. Vou querer que te lembres do primeiro abraço que te dei e que te guardes nele. Como se fosses a sua semente. Porque é isso o amor. É a doação infinita de um ser a outro. E é isto que serei para ti. Sempre. Sempre. O amor. (Para o Tomás.)

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A cidade

Uma luz suave cai sobre a cidade quase adormecida. Há uma semi-noite que se anuncia. Há vidas por dentro das janelas iluminadas. Há telhados que terminam em águas-furtadas. Vê-se o pico de uma igreja e a porta semi-aberta através da qual pessoas se cruzam, acenando-se. Um pouco ao longe, num prédio que sobressai dos restantes, avista-se uma divisão ampla, com os cortinados em desalinho e um candeeiro de teto a pender para o meio da sala. Em toda uma parede há estantes com livros, de todas as cores e tamanhos, um jardim de letras onde se semeiam as palavras. 
Num canto, à lareira, um vulto lê. Há uma manta que lhe cobre os ombros. E eu não sei a sua idade. Talvez vinte, um pensador ávido de conhecimento. Talvez quarenta, mente madura a precisar de palavras. Talvez, até, oitenta, pesando a vida com o pensamento dos outros. O livro fala-lhe. Ele responde-lhe em silêncio.
Entretanto, o dia rompe. O sol já vai um tanto alto quando acordo. Há zumbidos de pássaros nos alvéolos das flores e cantos de abelhas nos ramos das árvores. Ou será ao contrário? Neste momento não sei se foi sonho ou real. Se foi vida ou ficção. Não sei o que acontece em mim quando durmo, senão que sei que sonho. É isto a vida.
E há sempre vida por dentro das casas. Pelo menos enquanto não nos morrerem as memórias. 

sábado, 27 de abril de 2013

O trevo e o pirilampo

Houve um tempo em que na minha memória apenas habitavam campos de trevos pintados de flores amarelas. Houve, também, pirilampos, pequenos voadores que exigem longas e quietas planícies douradas para existir. A esta memória gosto de chamar infância, a idade que não tem idade, nem dias, nem horas, onde o tempo só é tempo nos relógios do futuro. 
Os pirilampos vinham à noite linguarejar-me o sono. Outras vezes eram os cães. Outras, ainda, era o matraquear da velha máquina de escrever de meu pai, que ronronava pela noite dentro, como se para ela também não existisse tempo, apenas a velha infância. Não sei o que ela escrevia. Nunca o soube. 
Há lugares que nunca esquecemos. Como se nos corressem nas veias como a seiva nas flores. Ou como se se tatuassem na nossa pele como amor de mãe. Aqueles lugares onde se descansa a minha memória e os pirilampos ainda piscam. 
Mas há, também, sítios que as ideias não visitam, nenhum pensamento os frequenta. Esses são os sítios-nada, onde o tempo, o lugar e a pessoa não se encontram para haver futuro. Desconfio, até, que nem os pirilampos por lá voam. São os lugares vazios onde as memórias não entram e os campos de trevos não existem. 
Agora habito sítios onde já não há planícies douradas nem pirilampos plantados junto aos trevos amarelos, ou a esgueirar-se em tons de azul até lá ao fundo, às nêsperas maduras.
Hoje já só vou guardando memórias. Mas há lugares onde, na vez delas, já só há silêncios e ocos.

domingo, 7 de abril de 2013

A casa

As janelas estavam fechadas, como se a casa se tivesse aquietado num sono profundo, ou tivesse mesmo adormecido, para sempre. Os retratos, cheios de pó e emoldurados a teias, pareciam pinturas de outra era, imponentes, de olhar sério e bigodes penteados a rigor. As senhoras, de vestidos que, ao movimentar-se, faziam um frou-frou suave, sorriam forçadamente para a tela, ou para o pintor.
Do lado de dentro das paredes só o silêncio, pesado, fúnebre, incandescido por uma natureza morta. Não havia nada, a não ser o nada a existir. 
Decorria o ano de 1900. Portugal era outro, mais novo, no traço e no género. Alguns coches passeavam-se pela cidade, uns a anunciar o futuro, outros ainda a trote de cavalo. Eu, que vivia noutra época, num futuro não muito longínquo, bebia aquela vida com a subtileza de uma borboleta que esvoaça ao redor da flor com movimentos de bailarina. E eu a querer ser dali. A querer existir a trote de cavalo. 
Os meus olhos pousaram na casa. Térrea, de paredes grossas, com vasos à janela. Uma luz baça, como que mortificada, penetrava as janelas fechadas fazendo anunciar a solidão da casa. Os objectos pereciam, perenes, cobertos de um pó esbranquiçado, nos móveis também eles por existir. Tudo tão vazio e, contudo, tão cheio. 
Quis entrar na casa, sentar-me na chaise longue e fazer parte daquele início de século tão diferente do meu. Como é viver no niilismo do futuro? No nada do amanhã, embora eu o saiba porque nele vivo? 
Há sempre algo de saudoso no passado. A mim, doíam-me os olhos de não o poder ter visto. Mas, o que mais dói na saudade, é ela existir. 

7 de Abril de 2013

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A pessoa mais fascinante que nunca conheci

O frio crepita no lume apagado da lareira. Lá fora a chuva tece uma conversa de fim de dia, num murmúrio quase inaudível. Por dentro das casas há silêncios, conversas feitas de nada. As janelas piscam luzes fracas que se vão acendendo à vez. E o frio no lume apagado da lareira.
Em cima de uma mesa, uma vela derrama uma luz ténue, semi-ofusca, desenhando no tampo o candelabro velho e sujo. As horas vão passando. A chuva começa a cair a pique, fazendo tinir nos passeios um som de vidros a partir. Intensifica-se o frio. Intensifica-se a dor de ser só. E ela esbate contra o vidro a sua solidão. 
Há carros, porém, as ruas estão despidas de gente. No interior da casa há uma sobriedade incomum. Os gatos dormem. O pássaro cala. O cão sonha. Apenas ela existe. Existe naquele dia de ser ninguém. Pega um livro, pousa-o no regaço em contracapa. Lá dentro as personagens dormem. Abre numa página qualquer e Mary espreguiça-se, boceja, e beberrica um chá de menta enquanto conversa com Jack, o mordomo. Fecha o livro. A personagem adormece. 
Numa outra página, Mary conversa com Gabriel. 
- Esta indolência... é um aborrecimento. 
- Devia sair mais vezes, menina Mary.
- Para onde? Ver o quê? Já fiz tudo o que havia para fazer. Agora só me resta esperar.
- Diga-me, qual foi a pessoa mais fascinante que nunca conheceu?
Fecha novamente o livro. A pessoa mais fascinante que nunca conheci, pensa. E põe-se a dialogar consigo, num sussurro breve. 
A noite caiu, por fim. A chuva serenou, ouvindo-se apenas um ping-ping cadenciado e doce. Os animais estremecem, como que sacudidos por uma brisa, voltando rapidamente ao lugar comum do sono. A vela acaba por finar, deixando morrer também a sombra do candelabro. Um candeeiro de rua invade a sala com a sua luz, intrometendo-se na quietude da casa. 
A pessoa mais fascinante que nunca conheci. E desenha, em letras trocadas no baço da janela, onde a luz do candeeiro incide para a noite apagar, depois de o frio se extinguir: UT