quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Mal-me-quer

Mal-me-quer, bem-me-quer. Assim brincava a menina com as pétalas de uma flor.
Naquele dia tudo era estranhamente invulgar, como se uma nuvem tivesse chorado todo o seu negro e coberto a terra com uma tela pintada a cinzento.
No ar um riso de pássaros povoava o céu vestido de nuvens. 
Mal-me-quer, bem-me-quer. Tudo dito pelas pétalas de uma flor. Uma a uma, a menina ia despindo as flores ao mesmo tempo que ia pensando nas pessoas de quem gostava. Mãe: mal-me-quer, bem-me-quer, muito, pouco, nada. Pai: mal-me-quer, bem-me-quer, muito, pouco, nada. Ovelha Zita: mal-me-quer, bem-me-quer, muito, pouco, nada.
A tarde ia passando e a menina acabou por esgotar os nomes, as pessoas, as coisas. À última flor guardou-lhe a vida, o mundo para lá do seu limite. Sabia, porém, que essa lhe era ainda desconhecida e, por isso, lhe reservava imensas surpresas. 
Mal-me-quer, bem-me-quer, muito, pouco, nada. Mal-me-quer, bem-me-quer, muito, pouco, nada. Mal-me-quer. A menina olhou a pétala por arrancar, pousou a flor no chão e partiu com os olhos rasos de água. Às vezes o mundo é um lugar a preto e branco.


15 de Dezembro de 2010

sábado, 11 de dezembro de 2010

Síndrome do Tempo



Olhei o relógio da sala. Os ponteiros estavam parados. Era uma tarde feita de nada. Era um tempo triste, vestido de negro. Era a solidão esquecida a um canto. E do berço de poetas nasciam versos de lágrimas.
Naquele tempo eras tu a ler-me e os teus olhos sorriam-me. Trazias contigo o sol que vestias por entre as tardes que caíam frente ao mar. E, naqueles dias de entardecer, em que o sol parecia querer rasgar o céu com a sua luz, bebias com fulgor as tardes idas. Do teu peito respiravas um sopro de vida com ânimo, qual Eros embriagado de amor. E sorrias, como se a calma daquele lugar fosses tu a rir por dentro de ti.
O relógio da sala mostra-me as horas ora paradas daquela síndrome de tempo morto. E eu olho-as como se elas fossem o tempo a existir, como se a manhã, a tarde e a noite fossem um tempo só, para fazer daquele dia um uníssono de cores: o azul da aurora nascida, o amarelo fulgente dos campos de trigo, o negro do sol poente adormecido.
Hoje as tuas mãos vestidas de luto avançam o tempo nos ponteiros do relógio da sala. Queres chegar ao fim de ti sem saberes que já morreste, como se o teu olhar ainda risse, como se o corpo que trazes vestido fosse mais do que a sombra do que em ti existiu.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ícaro

O vento soprava aquela brisa suave de fim de tarde. Ela, com o corpo inerte a fazer de conta que via o mundo, respirava a luz do dia ora posto. E o entardecer lembrava a vida.
Ícaro chora num quadro pintado a água e fogo.
De dentro da solidão, um choro miudinho lembra-lhe as tardes postas, feitas a rir, feitas de musas a cantar.
Com o olhar já morto, ela olha as planícies vestidas de nada, o rio isento de tudo, as estrelas mortas a piscar e a lua, redonda, inchada, a rebentar de luz.
À distância o silêncio. Palavra que abraça a noite e enlaça a escuridão. Palavra que rouba à palavra o direito de ser gritada. Silêncio. Palavra calada, cheia de medo, palavra mundo onde jazem os poetas e os mágicos e os outros. Silêncio. Onde tudo é e nada é.
As horas passam naquele relógio parado. Os pássaros dormem e nas suas asas as asas do tempo que calou. As folhas das árvores abanam-se ao passar mudo do vento. E tudo se cala para se adormecer. O chão. As casas. Os homens.

05 de Outubro de 2010

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A Menina

A tarde ia caindo. O dia ia morrendo. Por entre a fraca luz que existia, o tempo corria lento por dentro de um murmúrio incomum. Ao longe, o espaço a sentir o vento dançarino.
A lua desenhava no firmamento um círculo pintado a branco, lembrando uma tela vazia de pintor cansado. Os uivos das raposas ecoavam tristes, passeando-se pelas ruas vestidas de solidão.
A menina dos olhos grandes olhava o mundo com espanto. E de tanto existir, sorria com a força bruta de ser.
No relógio da sala os ponteiros estavam parados. Era uma tarde feita de nada. Era um tempo triste, vestido de negro. Era a solidão esquecida a um canto.
E do berço de poetas nasciam versos de lágrimas, como se o tempo fosse outro nesse tempo, a ser feito de um silêncio apagado.
E a noite, a cair por entre os fios de água, era a vida a diluir-se num rio de memórias tristes. E o tempo, a fazer-se de morto, era o riso de crianças a espreitar à janela.
A menina, cansada de ser triste, sorriu ao tempo e esqueceu-se de ser. Voltou-se para o espelho que a reflectia e mais não viu senão a sua solidão vestida de menina sem cor.


28 de Setembro de 2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Sofia e o Mocho

Sofia olhava o mundo circunspecta e pensava se para além de si mais alguém se espantava com o que via. O mundo era tudo o que existia, o que já tinha morrido e, quiçá, o porvir, que seja o futuro a ser. Sofia pensava, com o olhar inquiridor, e fechava-se na sua consciência à espera do seu amigo, o Mocho, que lhe trazia notícias do mundo a existir.
Mas nessa noite o Mocho tardou a aparecer. Sofia quedou-se a olhar a lua que crescia imponente num céu cheio de estrelas. O seu olhar passeava por dentro de si tentando encontrar os sonhos de outrora, de quando o mundo era feito de respostas simples. Mas as perguntas não. As perguntas continham toda a dúvida do mundo.
O Mocho chegou, por fim. Sofia olhou-o demoradamente na certeza que o seu amigo logo começaria a falar. Mas o Mocho calou.
- Estás triste?- perguntou Sofia.
O Mocho, triste triste, procurou no olhar de Sofia a aquietação para a sua dor.
- Sabes Mocho, às vezes também fico assim como tu, triste. Entendo a tua dor. Quando eu tinha amigos, eles ajudavam-me a pintar a vida com as cores do arco-íris. De dia víamos o sol nascer e contávamos os minutos e as horas até ele desaparecer no horizonte, como que devorado pela Terra. À noite contávamos estórias. Às vezes ríamos, outras chorávamos. Depois, os meus amigos foram indo, um por um, à procura de outros mundos. Eu fiquei a vê-los partir. Depois não fiz mais amigos. Tive medo da dor. É triste perder amigos. É triste ficar sozinha.
O Mocho olhava, também ele, a lua, e suspirava, como se do seu peito não houvesse mais nada senão um peso imenso. Deixou cair, furtivamente, uma lágrima.
- Está na hora de eu também partir.- disse o Mocho apreensivo.
Sofia olhou morosamente o seu amigo.
- Um ser como eu não foi criado para ficar muito tempo no mesmo sítio...
- Porque te vais embora? Porquê, também tu, depois de te teres feito meu amigo, me abandonas?
O Mocho, triste triste, que parecia até mais pequeno de tamanha tristeza, não suportava o olhar de Sofia.
- No dia em que nos conhecemos, tu vinhas vestido de cores alegres, trazias nas tuas asas a luz das manhãs e o frescor das primaveras. Contigo aprendi a amar cada pedacinho da vida, cada conto que me trazias era para mim uma novidade do mundo que eu sorvia avidamente. Ficava horas a escutar-te e, quando te calavas, alisava-te as penas até te adormeceres. E eu adormecia-me também e por vezes sonhava que voava contigo para os castelos das tuas estórias. Quando acordava tu já não estavas, mas deixavas-me uma pena das tuas para eu saber que tu eras real. Tenho-as todas guardadas. Irão ser o refúgio da minha saudade.
Sofia olhou a sua janela, o parapeito onde todas as noites o seu amigo pousava, mas o Mocho desaparecera. Sofia sentiu uma dor imensa, acometida, porém, por uma raiva também ela grande, por o seu amigo ter partido sem uma despedida. Soltou um suspiro e olhou para o chão do quarto, rente à janela, onde, sepultadas, se encontravam todas as penas do seu amigo Mocho, e o seu corpo, desnudo, com uma respiração muito breve, esperava apenas que Sofia o olhasse uma última vez para, enfim, partir... 

22 de Julho de 2010

domingo, 11 de julho de 2010

O Menino

O menino brincava por entre a tarde que chegava. O seu olhar pequenino ia pousando no mundo ao seu redor numa busca inquietante de não saber o que procurar, tamanha era a insaciedade de tudo querer. À passagem da luz que fazia sombra sobre os brinquedos um sorriso grande espelhava-se no olhar do menino, como se o mundo a existir fosse aquele pano bordado de luz onde brincava.
O tempo a fazer de morto fazia demorar-se naquela tarde sem pressa. O menino ia crescendo e já não olhava o mundo com espanto. O menino ia existindo numa vida a esmorecer como um fogo que, depois de extinto, deixa apenas a cinza a existir.
E o olhar do menino era o medo e a morte e a solidão. O olhar do menino era os fins de tarde cinzentos chorados pelas nuvens vestidas de negro.
O sol nascia todos os dias mas parecia ser cada vez mais pequeno, como se de dia para dia morresse um pouco. Ou então era o olhar do menino que, estando a morrer, fazia também morrer o sol de todas as manhãs.
Um dia o menino acordou e não viu o mundo. No seu olhar infinitos pontos negros substituíam o sol, as flores, os pássaros, os outros meninos. O menino chorou, chorou muito, para tentar repor a luz nos seus olhos, como se as lágrimas pudessem lavar todo aquele negro. Mas quanto mais chorava mais negro o seu olhar se tornava. E grossas gotas negras iam caindo no colo do menino.

11 de Julho de 2010

As tardes da avó Júlia, ou, O Riso

A avó Júlia sentava-se todos os dias no terraço frente à cozinha a descascar batatas para a sopa. Ao longe, os gritos das crianças faziam-na recordar a infância que não teve quando, aos cinco anos da sua tenra idade, tinha que se levantar madrugada fora, quando o sol ainda dormia enroscado nos seus sonhos e a manhã ainda não era.
Os seus pés pequeninos mergulhavam na água fria da noite e atreviam-se a brincar com os peixes expectantes de companhia. Mas logo a sua mãe lhe arregalava os olhos mostrando indizivelmente que a hora não era para morrer nos tempos da brincadeira.
Dos seus olhos verde água saltavam assim os peixes para irem procurar num outro lugar outros meninos e outras brincadeiras. A avó Júlia ficava a vê-los afastar-se com os olhos mudos de silêncio. No seu olhar morria a noite que acabara de acordar para um dia quente.
E, naquele dia de solidão, a avó Júlia percebera que o seu destino se fazia de água e de peixes a fugir. Nunca, no tempo que estava para nascer, os seus pés conheceriam outra vida que não as albufeiras de água que formaram o rio da sua infância. E, no seu olhar, uma tristeza infinita.

A noite caiu como que um manto de neve a cobrir o jardim. A avó Júlia olha os campos que se estendem a perder de vista. Os seus cabelos cor de prata enrolados num novelo fino. O seu sorriso negro como a noite acabada de chegar. E por dentro dessa noite que se fez negra ao morrer do dia, a vida toda da avó Júlia num mar de chamas que ardem para lá das searas adormecidas. Ao fundo, também vestido de negro, o rio da sua infância corre manso.
Ao fim do sol-pôr morre o dia como morreu outrora na avó Júlia o sonho de ser criança.

11 de Julho de 2010

domingo, 30 de maio de 2010

Nas tuas margens chorei

Era uma noite fria. Chovia como se a água quisesse ferir o mundo. As nuvens carregadas de negro choravam, assim, o seu pesar. As árvores gemiam ao passar do vento. No ar, um choro de pássaros rasa o céu.
Sentei-me nas margens dessa dor que te chora por dentro. O teu rosto de te ver sorrir esculpido nas memórias que se sentam comigo. A tua voz por dentro de mim chama-me a beber do teu olhar. É a tarde que chega e com ela a solidão.
Hoje sou ninguém. Sinto que não sinto que sou. E por dentro do tempo um relógio que recua. As horas e os dias e os meses andam para trás querendo ir ao encontro de ti. Mas o tempo parou num exacto momento de solidão. E o que parecia ser apenas um rasgo de dor tornou-se a própria dor rasgada de dentro de si. E em mim nenhuma certeza. Nada do que faz parte do mundo existe em mim. Nenhum sorriso, nenhum canto, nenhuma lágrima, nenhum pássaro, nenhuma flor. Nada. Ninguém.
Observo a vida, calada. E o teu olhar por dentro de mim rasga-me num sorriso. Dizes-me, não te sentes nas minhas margens a chorar. E o sol sorri dentro de ti dentro de mim. E a tarde a morrer lentamente no dia. E a vida a ser respirada. E no ar o canto fúnebre da tua morte.
Não te quero sujeitar a esta dor, mas tu próprio sabes o que sinto. E dizes, não te sentes nas minhas margens a chorar. E o teu sorriso a olhar-me. E os teus olhos a sorrirem-me. E o teu nome a passear-se por dentro de mim e a tocar todo o meu corpo. E essa luz negra que me cega e transforma em negro a minha solidão.
E tu não sabes que este dia que se fixou em mim me faz viajar por dentro do tempo e me faz virar as páginas dos dias que já foram escritos. Esse tempo que é a morte e a dor e a solidão. E a vida a fazer-se tarde, e a tarde a fazer-se noite, e a noite a fazer-se luz banhada a negro a cobrir um dia que morreu.

30 de Maio de 2010

A morte brinca ao faz de conta

Hoje amanheceu devagar, como se o dia quisesse morrer na noite que acabou. Caminhava sem pressa, pois o que estava à minha espera era a tua dor e o teu luto, as únicas coisas que restaram depois da tua morte. Nada mais em mim ficou nesse dia infinito, penosamente infinito, senão a tua ausência em mim.
A tarde soprava uma brisa morna e no céu  de um hipérbole azul pássaros esvoaçavam felizes. As nuvens pareciam camas de algodão e eu penso, talvez te deites, esta noite, numa delas e durmas sossegado. O sol aquece a minha pele e eu sinto como que um lume a ferir-me por dentro.
O dia tornava-se obsidiante. Moroso. O negro no rosto das pessoas era fastidioso. E o teu sorriso. E a tua calma. Tudo em ti tão bonito e tão morto.
A terra exalava um canto triste. Rostos por detrás das cortinas assistiam ao nosso passar. Num beco, ladeado por casas sombrias, algumas crianças brincavam, e tu no meio delas. Sorrias e acenavas contente de ti. Eu olhei-te. Por instantes a dor cessou. O negro do luto desaparecera e no seu lugar um pleonasmo de cores. No ar elevou-se uma canção e o mundo parou, suspenso num tempo que morreu.
Atrás de mim segue a tua cadela. Também ela te perdeu. Também ela quis ver o teu olhar mais uma vez. Também ela se senta, ainda, frente ao portão, à espera do teu regresso. Num dia, e no outro, e no outro. A espera infinita. A espera incessante. Até que se deita, cabeça em cima das patas dianteiras, e começa a fechar os olhos lentamente e adormece na tua espera nunca chegada.
E esse rio de lágrimas que corre dentro de mim. E a solidão. E de novo o negro da tua morte. E os pássaros que se descansam e namoram nos ramos finos das árvores neste dia tremendamente morto.
Olho o céu, agora feito noite, e aquela tarde foi infinita, como se o dia tivesse parado e o tempo voltasse para trás até ao dia em que morreste.
E nesse céu infinitamente grande, onde as estrelas também jazem, mortas de luz, o teu nome aparece bordado num sorriso de criança, no teu sorriso de menino a brincar ao faz de conta. E numa nuvem feita de cama dormes o teu sono sossegado, desces até mim em forma de sonho e dizes-me em surdina que a morte apaziguou, finalmente, a tua dor. E a tua mão na minha é o luto transformado em solidão. E o meu choro não é senão o medo de te ter perdido, para sempre.


30 de Maio de 2010

sábado, 29 de maio de 2010

Criança que morreste

Olhavas-me como se olhasses um retrato por dentro.
O teu sorriso de criança pequena dissipou-se, como que bebido pelo sol quente do fim de tarde. Fazias lembrar a nossa infância quando brincavas sossegado no teu canto de menino.
Mas o sol pôs-se nesse fim de tarde cinzento. O teu sorriso rasgado por dentro era o sol a ir embora, devagarinho, a cair por dentro do mar. O teu peito, gasto de respirar esse ar cansado de vida, subia e descia em ti numa onda que ia morrendo lentamente.
As searas dançavam ao longe, agitadas pela aragem morna da noite que avançava lesta por dentro do dia.
E a noite tornou-se infinita, como se dentro de cada segundo morasse uma eternidade. Como se o tempo tivesse parado dentro de si. Como se essa noite se tivesse repetido sempre, sempre. Todos os dias e todas as noites repetidamente iguais, gastas, mortas, paradas.
Nos teus sonhos de menino costumavas contar-me que vias estrelas a crescer nos teus cabelos. E eu chorava-te nos dias em que tu já não eras. 
A luz fina da noite rasga a obscuridade da terra e cobre com um manto negro todo o campo. As searas murmuram num restolhar feito de dor.
Disse-te que esqueceria, mas hoje, ao voltar a casa, da minha memória saíu esse silêncio que se fez quando tu, ainda menino, nos dizias vou morrer, sei que vou morrer. O teu olhar era triste. O teu corpo cansado. A tua voz morria depois de morrer cada palavra.
A casa continua calada. O teu quarto mostra ainda os brinquedos que eram o teu mundo de criança. As cortinas foram substituídas por pesadas teias feitas por vidas que não a tua. Os vidros deixam entrar uma luz suja que pousa, subtil, na penumbra do quarto. Tudo adormece. Tu, sentado por entre a tua meninice, sorris ao imitar o som dos carrinhos de corrida que avançam, velozes, nas tuas mãos que os seguram, firmes.
E o teu olhar. Hoje voltei a ver o teu olhar de menino. Olhavas-me como se olhasses um retrato por dentro. Penso, talvez a vida seja a morte ao contrário. E um rasgo de solidão entrou pela janela aberta e deitou-se a meu lado.


29 de Maio de 2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A cadela mãe

A cadela parira cinco cachorros, todos iguais, todos meticulosamente iguais, como se fossem uma cópia sincronizada do mesmo. Doía vê-los assim, nessa irmandade única de serem iguais.
O pastor de todos os dias, que saía pelas manhãs com o seu gado para o monte, notou a ausência da cadela e, num relancear de olhar, avistou-a por entre o feno onde, ofegante, respirava o parto terminado. Os cachorros dormiam todos os cinco encostados à mãe paciente que os protegia dessoutra dor que é existir. No seu olhar, um olhar triste. Triste. Não das vidas que gerou mas do medo de ser pequenina para a dor dessas vidas.
Todos os dias que restam à cadela viver são também os dias que o pastor avançará para o monte no intuito único de ver as ovelhas crescer.
À sombra da tarde, quando o riso do sol queima o resto dos dias tristes, o homem pastor descansa a sua vida feita da ferocidade do tempo que passa.
Por entre os fios de luz que o sol teima em tecer, o vale começa a adormecer sob o efeito do dia composto de cansaço. No ar sente-se o aroma doce das flores que acordam para uma nova primavera.
Nesse passado que também ele dói de existir, quando a cadela, sem saber o que é ser mãe, corria feliz atrás das ovelhas, o pastor sabia existir aquela doçura secreta das manhãs coloridas, feitas de pontos de luz brilhantes e muito sossegados. Parecia ver a vida por dentro da vida.
Os olhos do pastor adormecem também, fechando-se sob o peso do dia. As ovelhas continuam a escolher a erva verde, repasto saciante da sua fome. Os ventres já inchados brilham como luzes dançarinas. A cadela do olhar triste e os seus cachorros são a esperança da vida continuada, dessa vida que se funde no alimento jorrado pelas tetas da cadela e sofregamente sugado pelas bocas tenras e quentes dos cinco cachorros irmãos.
21 de Maio de 2010

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Incógnito

Percorrias o lado errado da noite e o teu olhar misturava-se com as luzes dessa noite clandestina que teimosamente insistias viver. Os passos que davas eram a ausência do teu chão de menina.
Na noite em que tudo nasceu, o teu olhar demorou-se no meu como duas gotas que descem paulatinamente no mesmo vidro, fundindo-se no encontro de si.
A tua presença ia crescendo dentro de mim, espreguiçando-se para o meu novo acordar. Os teus olhos lânguidos tocavam o escuro do meu coração.
Nessa noite em tudo perfeita, fingiste ser a musa dos meus sonhos, a poetisa dos meus versos que eu escrevia a medo sob pena de tornar indizível aquilo que nos unia. Nesses dias de pequenos instantes costurávamos risos à janela e recebíamos as manhãs vestidos de poesia. À noite ouvíamos o gargalhar dos pássaros, felizes, e ríamos enlaçados no poema que nos fez.
A cada acordar teu eu rejuvenescia. A tua pele perfumada e o teu riso inebriante de menina regavam as minhas manhãs.
Por entre a noite que acabou de cair percorro os passos que deste nessa tua noite ida. As luzes que me ferem são todos os dias em que fingiste ser a dor que não te era.
Esse caminho que me é estranho não o faço senão na memória de ti, senão nas palavras dançadas nas tuas mãos que transformavas em borboletas coloridas numa metamorfose única.
Depois de o tempo passar ficaram as tuas lembranças na janela da minha memória, varrida que foi a tua presença outrora incessante. Mortificadas as horas gastas, resta a tua silhueta fixa na luz trémula de um candeeiro.
As linhas tracejadas são agora palavras ocas, palavras mortas e esquecidas num canto por escrever.
20 de Maio de 2010

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Eu, tu e o amor

Naquele fim de tarde vinhas sorridente. Trazias um vestido branco, mais puro que a neve pura, e sorrias. Os teus olhos pareciam dois pontos de mel. Nas mãos trazias o tempo para sermos felizes. Eu, atravessado pela dor de já não te sentir, olhava-te como da primeira vez, quando o tempo se deteve para nos amar. Mas o tempo avançou e eu não soube que te perdia. Neste resto de dia, depois de partires, senti essa dor rasgante que mata o tempo sem querer.
Sozinho, seguido apenas pela minha sombra, caminhei muitos dias e muitas noites na esperança, embora vã, de te encontrar. Percorri os dias e as noites, percorri o tempo dentro do tempo. O único sinal de ti era somente a minha memória.
Dentro de mim o tempo chorava. O tempo eras tu quando me sorrias. O tempo eras tu quando, calada, me davas a mão e me sorrias. Mas eu não sabia que o tempo, depois de ti, era também a ferida que ficou quando partiste. O tempo era as horas mortas de não te poder sentir.
Naquele dia trazias o perfume bebido das flores. Trazias o tempo de tudo abraçar. Trazias a magia das manhãs de auroras feitas. Sem perceberes, sorrias-me, e o teu sorriso era o contágio da vida com a vida, era as horas contadas dentro do tempo, era o sentido de tudo ter sentido.
Mas a vida quis ser vida num outro tempo. Ao longe acenaste um último adeus e, sem pressa, caminhaste numa direcção oposta. Deixaste cair o vestido branco e a tua pele resplandeceu. Nenhum olhar me mostraste. Eu deixei-me ficar, preso a mim, preso ao tempo que me impede de te ter.
O vento soprou, leve, o teu nome. As folhas das árvores caem, mortas, ao meu redor, cobrindo o chão de tons tristes. Levanto-me para ir ao teu encontro e, quando te encontrar, dir-te-ei que sim e seremos novamente três: eu, tu e o amor.
19 de Maio de 2010

O gato que não sabia não ser gato


Um rasto de luz ecoa por entre as árvores vestidas de pássaros. Numa sombra esquecida dorme um gato, gordo, tecido com um pelo fofo e brilhante. De quando em vez espreguiça-se, encolhe as patas devagar e dorme como se o tempo não adivinhasse outra vida para além da sua vida de gato.
Homens gastos pelo tempo tecem conversas de fim de tarde. Numa mesa, na esplanada de um café, um homem, só, escreve desenfreadamente. As palavras, despertas para o tempo, nascem da sua mão como se fossem fios de água a escorrer pelas vidraças num dia aguado.
Os carros circulam nas ruas, cansados de existir. A pressa, o tempo, a incerteza. Tudo existe nesta vida de existir.
A noite por dentro do fim de tarde acabou por cair precipitadamente. Nos ramos das árvores os pássaros entoam uma melodia triste, arrastada pelo canto do vento. Agora que se fez noite e o tempo morreu um pouco mais, o gato  gordo levantar-se-á para uma outra vida, não diferente da sua vida de gato, contudo, idêntica à sua vida de gato, a vida de existir e de ser gato.
O homem parará na sua ânsia de escrever, não esquecendo porém o grito silencioso da palavra.
Antes de o tempo ser tempo a vida não existia. O gato sem ser gato também não. Apenas existia uma eternidade parada à espera que o relógio desse a primeira badalada e começasse a andar, ritmicamente, sempre à mesma velocidade até ao dia em que se cansar e, estático, se detenha para sempre.
Gostava de ser o tempo em que tudo nasceu. Gostava de ser o tempo por dentro do tempo. Gostava de dizer ao tempo para parar de ser tempo. 
O gato continua a passear a sua vida de gato, a sua miserável e austera vida de gato, sem saber, sequer, que um dia não foi gato.
19 de Maio de 2010