quinta-feira, 22 de julho de 2010

Sofia e o Mocho

Sofia olhava o mundo circunspecta e pensava se para além de si mais alguém se espantava com o que via. O mundo era tudo o que existia, o que já tinha morrido e, quiçá, o porvir, que seja o futuro a ser. Sofia pensava, com o olhar inquiridor, e fechava-se na sua consciência à espera do seu amigo, o Mocho, que lhe trazia notícias do mundo a existir.
Mas nessa noite o Mocho tardou a aparecer. Sofia quedou-se a olhar a lua que crescia imponente num céu cheio de estrelas. O seu olhar passeava por dentro de si tentando encontrar os sonhos de outrora, de quando o mundo era feito de respostas simples. Mas as perguntas não. As perguntas continham toda a dúvida do mundo.
O Mocho chegou, por fim. Sofia olhou-o demoradamente na certeza que o seu amigo logo começaria a falar. Mas o Mocho calou.
- Estás triste?- perguntou Sofia.
O Mocho, triste triste, procurou no olhar de Sofia a aquietação para a sua dor.
- Sabes Mocho, às vezes também fico assim como tu, triste. Entendo a tua dor. Quando eu tinha amigos, eles ajudavam-me a pintar a vida com as cores do arco-íris. De dia víamos o sol nascer e contávamos os minutos e as horas até ele desaparecer no horizonte, como que devorado pela Terra. À noite contávamos estórias. Às vezes ríamos, outras chorávamos. Depois, os meus amigos foram indo, um por um, à procura de outros mundos. Eu fiquei a vê-los partir. Depois não fiz mais amigos. Tive medo da dor. É triste perder amigos. É triste ficar sozinha.
O Mocho olhava, também ele, a lua, e suspirava, como se do seu peito não houvesse mais nada senão um peso imenso. Deixou cair, furtivamente, uma lágrima.
- Está na hora de eu também partir.- disse o Mocho apreensivo.
Sofia olhou morosamente o seu amigo.
- Um ser como eu não foi criado para ficar muito tempo no mesmo sítio...
- Porque te vais embora? Porquê, também tu, depois de te teres feito meu amigo, me abandonas?
O Mocho, triste triste, que parecia até mais pequeno de tamanha tristeza, não suportava o olhar de Sofia.
- No dia em que nos conhecemos, tu vinhas vestido de cores alegres, trazias nas tuas asas a luz das manhãs e o frescor das primaveras. Contigo aprendi a amar cada pedacinho da vida, cada conto que me trazias era para mim uma novidade do mundo que eu sorvia avidamente. Ficava horas a escutar-te e, quando te calavas, alisava-te as penas até te adormeceres. E eu adormecia-me também e por vezes sonhava que voava contigo para os castelos das tuas estórias. Quando acordava tu já não estavas, mas deixavas-me uma pena das tuas para eu saber que tu eras real. Tenho-as todas guardadas. Irão ser o refúgio da minha saudade.
Sofia olhou a sua janela, o parapeito onde todas as noites o seu amigo pousava, mas o Mocho desaparecera. Sofia sentiu uma dor imensa, acometida, porém, por uma raiva também ela grande, por o seu amigo ter partido sem uma despedida. Soltou um suspiro e olhou para o chão do quarto, rente à janela, onde, sepultadas, se encontravam todas as penas do seu amigo Mocho, e o seu corpo, desnudo, com uma respiração muito breve, esperava apenas que Sofia o olhasse uma última vez para, enfim, partir... 

22 de Julho de 2010

domingo, 11 de julho de 2010

O Menino

O menino brincava por entre a tarde que chegava. O seu olhar pequenino ia pousando no mundo ao seu redor numa busca inquietante de não saber o que procurar, tamanha era a insaciedade de tudo querer. À passagem da luz que fazia sombra sobre os brinquedos um sorriso grande espelhava-se no olhar do menino, como se o mundo a existir fosse aquele pano bordado de luz onde brincava.
O tempo a fazer de morto fazia demorar-se naquela tarde sem pressa. O menino ia crescendo e já não olhava o mundo com espanto. O menino ia existindo numa vida a esmorecer como um fogo que, depois de extinto, deixa apenas a cinza a existir.
E o olhar do menino era o medo e a morte e a solidão. O olhar do menino era os fins de tarde cinzentos chorados pelas nuvens vestidas de negro.
O sol nascia todos os dias mas parecia ser cada vez mais pequeno, como se de dia para dia morresse um pouco. Ou então era o olhar do menino que, estando a morrer, fazia também morrer o sol de todas as manhãs.
Um dia o menino acordou e não viu o mundo. No seu olhar infinitos pontos negros substituíam o sol, as flores, os pássaros, os outros meninos. O menino chorou, chorou muito, para tentar repor a luz nos seus olhos, como se as lágrimas pudessem lavar todo aquele negro. Mas quanto mais chorava mais negro o seu olhar se tornava. E grossas gotas negras iam caindo no colo do menino.

11 de Julho de 2010

As tardes da avó Júlia, ou, O Riso

A avó Júlia sentava-se todos os dias no terraço frente à cozinha a descascar batatas para a sopa. Ao longe, os gritos das crianças faziam-na recordar a infância que não teve quando, aos cinco anos da sua tenra idade, tinha que se levantar madrugada fora, quando o sol ainda dormia enroscado nos seus sonhos e a manhã ainda não era.
Os seus pés pequeninos mergulhavam na água fria da noite e atreviam-se a brincar com os peixes expectantes de companhia. Mas logo a sua mãe lhe arregalava os olhos mostrando indizivelmente que a hora não era para morrer nos tempos da brincadeira.
Dos seus olhos verde água saltavam assim os peixes para irem procurar num outro lugar outros meninos e outras brincadeiras. A avó Júlia ficava a vê-los afastar-se com os olhos mudos de silêncio. No seu olhar morria a noite que acabara de acordar para um dia quente.
E, naquele dia de solidão, a avó Júlia percebera que o seu destino se fazia de água e de peixes a fugir. Nunca, no tempo que estava para nascer, os seus pés conheceriam outra vida que não as albufeiras de água que formaram o rio da sua infância. E, no seu olhar, uma tristeza infinita.

A noite caiu como que um manto de neve a cobrir o jardim. A avó Júlia olha os campos que se estendem a perder de vista. Os seus cabelos cor de prata enrolados num novelo fino. O seu sorriso negro como a noite acabada de chegar. E por dentro dessa noite que se fez negra ao morrer do dia, a vida toda da avó Júlia num mar de chamas que ardem para lá das searas adormecidas. Ao fundo, também vestido de negro, o rio da sua infância corre manso.
Ao fim do sol-pôr morre o dia como morreu outrora na avó Júlia o sonho de ser criança.

11 de Julho de 2010