quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Dói-me a dor que não me dói

Naquele dia acordara com uma estranha dor no peito, como se lhe dançassem alfinetes no coração. Abriu a persiana e viu lá fora o dia a rir. Era sábado. Um beija-flor veio à janela, bateu as asas e voou. A dor diminuiu. Um estranho doce-amargo subiu-lhe à boca. Sentou-se na beira da cama e adormeceu.
Diga-me, ainda sente dor? Lentamente abriu os olhos e viu uma figura baça, pequena, difusa, como se viesse longe no caminho. Abanou a cabeça em jeito de negação.
Havia um cinzento pálido na rua. O sol já se descansava atrás da noite. De súbito a dor, de novo a dor, como um martelar de relógio, tic-tac, sem saber qual mais doía, se o tic, se o tac. Sentou-se na cama e levou a mão ao peito. O coração desacelerava o seu ritmo, parecia minguar-se como o dia. Alguém?, chamou. Apareceu o homem, já não de branco, mas de cinzento como a rua.
Tem de me descrever a dor, vamos lá tentar. Como é? Àquela pergunta seguiu-se um silêncio, não só de palavras mas também de olhares. Observou a rua, agora mais escura, de um negro oposto à cal. Não sei, responde, dói-me sempre mais do que a dor. 
Nisto, o médico começou a atirar frases ao ar, fazendo comparações, analogias, utilizando metáforas para descobrir o tamanho da dor. A profundidade. O sentir. Enquanto ele falava, a dor deslocava-se, já não doía no corpo mas na voz. Na voz dele. Aguda... forte... como lâminas... como agulhas... Havia tantas dores, afinal. Mas ela só sentia uma. Sentia a que lhe saía pelos lábios dele, em cada precisão de esmiuçadas definições. Era sempre aquela que lhe doía e, contudo, nenhuma. 
Voltou a olhar a rua feita noite. O quarto estava quente, contrastando com o frio-azul da janela. O médico continuava a balbuciar metáforas de dor para adivinhar-lhe o sentimento. Nisto, a dor ia e vinha, como o comboio que chega e parte, à mesma hora, da estação. 
Então, não é nenhuma destas que sente? Ela olhou-o, demoradamente, sem saber, de facto, o que lhe doía mais, se o peito, se a mão que a ele leva, se o movimento do braço que a levanta, se o pensar que a dor lhe dói. E sorri-lhe, pela primeira vez. 
Ele continua a insistir, a desenhar dores que nem ela sabia que existiam, num movimento perpétuo de palavras que, às vezes, só ele entende, como se o mundo fosse feito de pequenas cirurgias. Entretanto fala-lhe da importância dos sintomas, temos de descobrir a origem da dor e o quanto ela dói para aplicarmos as medidas corretas. É como se, à semelhança de um pintor, só aquela cor, aquele exato tom, nem mais, nem menos, fosse possível para terminar o quadro. 
Nisto, inspirou fundo, como se tomasse o último fôlego, e dá-lhe todas as respostas do mundo. É uma dor como se nunca tivesse visto o nascer do sol; como se nunca tivesse andado descalça na relva; como se não houvesse mundo; como se os palhaços não soubessem rir; como se me tivessem roubado a última carta que escrevi; como se só houvesse escuro como esta noite; como se não existissem sorrisos em lágrimas de meninos; como se o ontem fosse apenas uma memória. É isso. É uma dor que me vai apagando e me vai reduzindo a nada, como as estrelas, que só existem porque as vemos; como se eu fosse escrita a giz num quadro negro e, ao fim do dia, me varressem como pó para debaixo da mesa. É esta a dor que me dói. De me sentir gente e, contudo, não ser nada. 

Matrioska

Revejo-me num outro que dói ao ser-se gente. Olho-me ao espelho do avesso e vejo rugas a crescer-me nos olhos. Há dentro de mim matrioskas a nascer. Saem-me pelos dedos e escondem-se nas asas de borboletas que, tricotando danças ondulantes, desaparecem no verde ondeante das colinas. 
Faz frio. É outono-inverno seco. O lume apagado da saudade lembra um outro tempo. Jane encosta-se à janela e empresta os olhos à rua. O céu está carregado de negro. Um vento forte, ruidoso e rodopiante começa a fustigar a costa. As ondas agigantam-se num murmurejar estonteante, varrendo as frias rochas e lançando os pobres crustáceos mar adentro, tal a força do seu batente. No jardim os lírios dormem. A fúria intempestiva das águas paira no mar. Não se fará tarde sem que antes aqui chegue. Mas, por enquanto, os lírios dormem. 
Jane deixa-se embalar pela tarde quase escura. Recosta-se na cadeira de baloiço e olha a praia em reboliço. Lá longe o negro é mais denso. Uma pequena luz difusa desenha traços de temporal. 
Lá longe, nas colinas, as borboletas já não são apenas borboletas. São eu, eu, eu outra vez, são bonecas que me saem do corpo e se sentam, redondas e pesadas, lado a lado, adensando-se até se desaparecerem. E eu aninho-me no colo delas matrioskando-me na sua solidão.
O vento rompe agora o silêncio do jardim e bate, com força, de encontro à janela. Os lírios despertam e sacodem-se violentamente num emaranhado de dor. Começa a relampaguear e a luz cobre de prata o verde-escuro do relvado. Uma palmeira treme, gesticula, atirando-se pelas escadas abaixo num suicídio impetuoso. A janela começa a chorar gotas de chuva que precipitadamente começam a cair, como se o céu se abrisse num dilúvio furioso. 
A casa desfez-se, contudo, em silêncio. Parecia ter migrado de lugar. 
As asas partiram-se e delas nasceram braços. Meninas vão saindo umas das outras, como se se despissem de si mesmas. Despem-se porque crescem. Já não cabem no seu próprio corpo. Olham para trás, sorriem, e desaparecem na penumbra da noite, misturando-se com o verde-água da colina. Depois desfazem-se em espuma, em mar e ondeiam pela praia deserta, beberricando o doce-fel do entardecer.
Não havia maneira de a chuva parar. O vento continuava a gritar, arrancando algumas plantas por onde passava. O jardim, alagado, não sabia o que fazer a tanta água. Os lírios quase asfixiavam nas torrentes. Entretanto, de tudo se fez negro. Dentro da casa, na praia, na vila. Jane tateia às escuras e chega ao candeeiro a petróleo que, nesta altura, está sempre a postos. A chama a clarear ilumina-lhe o rosto cansado. A luz cresce, devagarinho, esbatendo-se nas paredes da sala num tremeluzir fraco. 
Já era muito tarde por dentro da noite quando o temporal cessou. Ouvia-se, lá fora, o escorrer da água, num murmúrio cadente. Havia algumas luzes a brilhar ao longe. A praia parecia ter-se adormecido sob um luar pálido. As ondas descansavam-se em maré vaza e Jane podia, enfim, dormir. Os lírios dormiam, tímidos e encharcados. Alguns ainda estremeciam. 
Volto para dentro de mim. Sou de novo matrioska.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Rosto da Infância

Desce as escadas com a sonolência a bater-lhe nos olhos. Ainda a noite dorme quando se levanta, como se o tempo parasse nas horas escuras. Penteia o cabelo, dá uma última demão à maquilhagem, ajeita o vestido. Bebe à pressa um café feito expresso e sai.
Por entre as folhas das árvores há um fino traço de luz pingando em suaves gotas de inverno. Aperta o casaco sob o frio aguado. Sorri ao padeiro que distribui a massa ainda quente, estaladiça e a cheirar a forno. Sobe-lhe à memória as trocas-voltas da infância e o riso mudo das arrelias matinais, quando, por entre os dedos, formava uma bola com o miolo do pão e a berlindava na mesa. Depois fingia comportar-se, quando a avó, por cima do ombro a espreitava e lhe dizia, bebe o leite, Bárbara, olha que chegas atrasada à escola.  E o tempo, naquela altura, não doía, era feito de uma espuma-canção que sabia a algodão doce nos domingos de feira. Come o pão, Bárbara, ralhava de novo a avó com o olhar cheio de nada. Era cega. Mas não na alma, onde tudo tem lugar.
Bárbara cresceu. De menina se fez gente. De gente se fez aos pedaços. Naquela manhã a chuva suspendeu-se, deixando os passeios escorregadios, as valetas atulhadas de lixo. As luzes começam a acender-se nas casas que madrugam, todos os dias, para os dias de trabalho. As crianças são levantadas à força, interrompendo o leito onírico em que se deitaram, fechando os olhos aos sonhos e abrindo-os ao frio que faz lá fora. 
Entretanto começara a cacimbar. Havia um grito mudo e negro que queria chorar a dor daquele inverno. Bárbara aguarda o comboio que a vai deixar no Intendente. Havia música-canção na chuva miudinha. Havia passos de dança nas águas que lavavam os passeios. 
Bárbara quer o futuro emprestado. Quer saber-lhe as profecias. Quer adivinhar-lhe os cheiros e sabores. Quer-lhe a vida por inteiro. E volta a sonhar, como em criança, quando a avó tinha de lhe bater no ombro e trazê-la de volta ao presente.
Olhe, sente um toque suave no braço, é o comboio. Não vai entrar?
Às vezes era bom que a infância não crescesse, que fosse suspensa num sítio onde nada dói.