sábado, 27 de abril de 2013

O trevo e o pirilampo

Houve um tempo em que na minha memória apenas habitavam campos de trevos pintados de flores amarelas. Houve, também, pirilampos, pequenos voadores que exigem longas e quietas planícies douradas para existir. A esta memória gosto de chamar infância, a idade que não tem idade, nem dias, nem horas, onde o tempo só é tempo nos relógios do futuro. 
Os pirilampos vinham à noite linguarejar-me o sono. Outras vezes eram os cães. Outras, ainda, era o matraquear da velha máquina de escrever de meu pai, que ronronava pela noite dentro, como se para ela também não existisse tempo, apenas a velha infância. Não sei o que ela escrevia. Nunca o soube. 
Há lugares que nunca esquecemos. Como se nos corressem nas veias como a seiva nas flores. Ou como se se tatuassem na nossa pele como amor de mãe. Aqueles lugares onde se descansa a minha memória e os pirilampos ainda piscam. 
Mas há, também, sítios que as ideias não visitam, nenhum pensamento os frequenta. Esses são os sítios-nada, onde o tempo, o lugar e a pessoa não se encontram para haver futuro. Desconfio, até, que nem os pirilampos por lá voam. São os lugares vazios onde as memórias não entram e os campos de trevos não existem. 
Agora habito sítios onde já não há planícies douradas nem pirilampos plantados junto aos trevos amarelos, ou a esgueirar-se em tons de azul até lá ao fundo, às nêsperas maduras.
Hoje já só vou guardando memórias. Mas há lugares onde, na vez delas, já só há silêncios e ocos.

domingo, 7 de abril de 2013

A casa

As janelas estavam fechadas, como se a casa se tivesse aquietado num sono profundo, ou tivesse mesmo adormecido, para sempre. Os retratos, cheios de pó e emoldurados a teias, pareciam pinturas de outra era, imponentes, de olhar sério e bigodes penteados a rigor. As senhoras, de vestidos que, ao movimentar-se, faziam um frou-frou suave, sorriam forçadamente para a tela, ou para o pintor.
Do lado de dentro das paredes só o silêncio, pesado, fúnebre, incandescido por uma natureza morta. Não havia nada, a não ser o nada a existir. 
Decorria o ano de 1900. Portugal era outro, mais novo, no traço e no género. Alguns coches passeavam-se pela cidade, uns a anunciar o futuro, outros ainda a trote de cavalo. Eu, que vivia noutra época, num futuro não muito longínquo, bebia aquela vida com a subtileza de uma borboleta que esvoaça ao redor da flor com movimentos de bailarina. E eu a querer ser dali. A querer existir a trote de cavalo. 
Os meus olhos pousaram na casa. Térrea, de paredes grossas, com vasos à janela. Uma luz baça, como que mortificada, penetrava as janelas fechadas fazendo anunciar a solidão da casa. Os objectos pereciam, perenes, cobertos de um pó esbranquiçado, nos móveis também eles por existir. Tudo tão vazio e, contudo, tão cheio. 
Quis entrar na casa, sentar-me na chaise longue e fazer parte daquele início de século tão diferente do meu. Como é viver no niilismo do futuro? No nada do amanhã, embora eu o saiba porque nele vivo? 
Há sempre algo de saudoso no passado. A mim, doíam-me os olhos de não o poder ter visto. Mas, o que mais dói na saudade, é ela existir. 

7 de Abril de 2013